Destes três grandes portugueses, Amália é a mais conhecida e muito popular. Desaparecida há 20 anos, continua a ser a maior artista portuguesa de sempre, que cantou a nossa alma, os nossos poetas e o nosso povo, pelos quatro cantos do mundo e encantou os milhões que tiveram o privilégio de a ouvir.
Luís de Camões, autor da nossa maior obra épica nacional, “Os Lusíadas”, também é, razoavelmente conhecido, por ser estudado na escola e dar o seu nome ao nosso dia nacional, 10 de Junho, “Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas”.
Fernando Pessoa foi, provavelmente, o maior poeta português dos nossos tempos e um criador notável, de tal modo que Miguel Torga, outro grande poeta português contemporâneo, muito parco e seletivo em elogios, escreveu no seu Diário em 3 de dezembro de 1935: “Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal, fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era”. É isso, Fernando Pessoa quase passou despercebido sendo, desconhecido da maioria dos portugueses porque a sua obra nunca teve a divulgação que merece, nomeadamente, como matéria de estudo obrigatório no ensino secundário. Mas, apesar da grande ignorância sobre Pessoa, fruto de falhas incompreensíveis da nossa política educativa e cultural, o seu lugar naquela troica de Dacosta não merece discussão porque, de facto, a sua grandeza está bem patente na sua obra, cuja leitura e interpretação (com os vários heterónimos) nos obriga a pensar e a refletir para podermos alcançar toda a sua dimensão.
É certo que esta questão do pensamento, ou para sermos mais precisos, da estruturação de um pensamento, resulta do estudo, da vivência, da experiência, da cultura e dos saberes acumulados, ou seja, de tudo o que nos ensina e obriga a pensar. É, no fundo, uma questão de educação, pois como diz o ditado chinês: “Se queres alimentar um povo durante um ano, planta trigo; durante dez anos, planta árvores; e durante cem anos, educa-o”. A ideia e a palavra são, segundo Steiner, as coisas mais poderosas do mundo e eu acrescentaria, também, as mais perigosas – veja-se onde chegou Hitler com a ideia e a palavra do “Mein Kampf”.
Nas nossas sociedades, a universidade tem como missão principal ensinar-nos a pensar para criarmos um pensamento. O pensamento e a formação que a universidade nos dá serão, depois, complementados por um conjunto de condições como: a família, a educação, o meio sociocultural, a profissão, etc., e assim se realiza o homem, o cidadão e o profissional. É, como nos ensinou Ortega y Gasset “eu sou eu e a minha circunstância”. Quando fazemos o nosso exame de consciência e uma análise retrospetiva à nossa vida, torna-se-nos mais claro apercebermo-nos de quem fomos, quem somos e porquê. Então, é mais fácil compreendermos a importância do pensamento que Pessoa criou, da palavra que Camões modelou e da língua pátria que, aquela voz inigualável de Amália, cantou.
Vou escrutinar o meu “pensamento” para satisfazer a curiosidade de uma jornalista que, a propósito da Medalha de Mérito com que a Ordem dos Médicos me distinguiu, no passado dia 27 de setembro, como tributo à minha carreira, me questionou sobre alguns aspetos mais relevantes da minha vida médica: porque me fiz médico? O que é ser médico? Como foi a minha carreira? Responderei em próximos artigos.






