Como referimos em artigo anterior, em 1960, alguns escritores e intelectuais portugueses propuseram Miguel Torga para prémio Nobel da literatura.
Logo à partida, houve uma lamentável divisão, já que também surgiu o nome de Aquilino Ribeiro. Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andreson e o seu marido, Francisco Sousa Tavares, lideraram o processo de candidatura de Torga. Este movimento contou com o apoio de alguns escritores como Eugénio de Andrade, Alexandre O’Neill, David Mourão-Ferreira, Hernâni Cidade, Fernando Amado e Salette Tavares, mas não teve a expressão que merecia porque a maioria dos intelectuais portugueses não a subscreveram. Isto foi salientado por Sophia, que referindo-se à pouca aderência ao nome de Torga, escreveu na altura: “Muitas pessoas se abstêm com os mais variados pretextos…O que se passa em termos meus é o seguinte: os escritores e intelectuais portugueses não querem que o Torga receba o prémio Nobel. Há panfletos, grupos, manobras, guerras, sofismas e etc. Eu penso que um prémio Nobel a Portugal só pode ser dado à poesia. Penso que um prémio dado ao Torga significa um prémio à poesia portuguesa, um prémio ao Teixeira de Pascoaes e ao Fernando Pessoa”.
À animosidade contra Torga, juntou-se a sua independência política (não era de partidos nem de fações) e o isolamento do país a nível internacional, fatores que contribuíram para o insucesso da candidatura. Acrescente-se que o prémio Nobel, o mais prestigiado de todos os prémios internacionais, não está isento de influências de diversa ordem, nomeadamente políticas.
Miguel Torga, em 1960, já tinha obra e prestígio para ser um nobelizado! Contudo, tudo o resto estava contra ele: a manifesta antipatia internacional por Portugal que era governado por uma ditadura retrógrada, inaceitável pelas democracias ocidentais; este sentimento anti-português contra o regime de Salazar também não favorecia a divulgação internacional da literatura portuguesa, quase desconhecida. Por outro lado, Torga era objeto da inveja e da aversão da maioria dos seus pares pelo seu êxito literário; também nunca contou com qualquer apoio do governo português e das suas instituições por ser um oposicionista; finalmente, numa época em que ser de esquerda era ser comunista, Torga era um esquerdista que rejeitava o comunismo e por isso muitos intelectuais portugueses e até de outros países, que eram comunistas, tornaram-se seus adversários implacáveis.
Desta forma, e por estas razões, praticamente todas do foro interno português, a candidatura de Torga não teve êxito. O atraso do nosso país à época e as tricas das fações literário-políticas que evidenciavam o provincianismo da nossa cultura, não davam a Portugal dimensão para ter um Prémio Nobel!




