Quarta-feira, 20 de Outubro de 2021
António Martinho
VISTO DO MARÃO Ex-Governador Civil, Ex-Deputado, Presidente da Assembleia da Freguesia de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

“A solidariedade não é facultativa”

Numa tarde de sexta-feira, 1997 ou 98, como era habitual, fiz o check in no balcão da Portugália com destino ao Porto.

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Coubera-me, então, um dos lugares da 3ª ou 4ª fila do Fokker F 100, do lado da coxia. Instalados, depressa vimos surgir o Presidente da República Jorge Sampaio. Entrou com toda a naturalidade, viu-me, cumprimentou com um aceno – um gentleman, reconhece-se – e tomou o seu lugar. Momentos após a descolagem, logo que possível, entretido na leitura de um dos diários que recolhera para me fazer companhia, nem me apercebi do «Então como vai o Martinho?», num cumprimento cordial. Optou por me fazer companhia. Durante aqueles 10/15 minutos que o pouco tempo da viagem nos facultava conversámos. Lembro alguns pormenores. E a região esteve presente, podem crer. Mas a atitude do Presidente não passou despercebida aos passageiros de turística. Com toda a simplicidade, Jorge Sampaio aproveitou para trocarmos impressões sobre isto e aquilo. Não desceu de nenhum pedestal. Aquele gesto era normalíssimo nele.

Recordei estes momentos junto da família quando a comunicação social nos lembrou que também as pessoas simples, imbuídas de profundo humanismo, capazes de combater por causas, que pugnam pela solidariedade, e a praticam, cordiais, contemporizadoras, construtoras de pontes, de ligação de fios que correm juntos, mas que têm dificuldade em se encontrar, enfim, criadores de consensos para promover um processo de desenvolvimento sustentável, mais equitativo e mais solidário, atingem um momento em que nos deixam o seu legado, mas deixam de estar presentes fisicamente. «Martinho, estou a pensar em visitar o concelho de… (não refiro, por estarmos em campanha para as autarquias). Que acha?… Era um gesto de gratidão, mas de solidariedade também. Claro que concordei.

A expressão que escolhi para título deste Visto consta do seu último artigo – Público, 26-08-2021. Ali explicita: «é um dever que resulta do artigo 1.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos». Foi por estes que se regeu e se bateu. Também por eles considerou dever continuar a exercer a sua cidadania, concitando a solidariedade para com os estudantes sírios e, agora, também para com as “jovens afegãs”. Deu para perceber, por estes dias, como os portugueses compreenderam bem as bandeiras que Jorge Sampaio ergueu. Políticas, umas; cívicas, outras. Uma vida… Desde estudante, como advogado, como político. Com toda a precisão, foi “Uma pequenina luz bruxuleante”.

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