Terça-feira, 18 de Janeiro de 2022
Barroso da Fonte
Escritor e Jornalista. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Alexandre Parafita e a «cátedra» mitológica

Coincidiu o aparecimento da última obra de Alexandre Parafita com a proclamação da «Cátedra Saramago» na UTAD. A condição temporal suscitou em mim algumas considerações que entendo partilhar com os leitores d’ A Voz de Trás-os-Montes. Não é este o espaço indicado pela disciplina que me incumbe de não ultrapassar 2500 carateres em cada artigo, o que compreendo e, como mais antigo colaborador vivo deste semanário, devo dar o exemplo.

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Começarei por declarar o meu direito à indignação. Não pelo convénio simbólico da cátedra, mas pelo patrono desse mito intelectual que nunca mereceu consenso da sociedade Lusófona, nem merecerá, por mais encargos que venha a implicar a sua «canonização e veneração» pagãs.

Nunca me saiu da retina e da memória o grito de Mário Soares quando invocou o direito à indignação. Que mais posso eu, do alto dos meus 68 anos de jornalismo, suados, neste Semanário e em vários outros da Lusofonia, se, aqui mesmo, em Vila Real, na Instituição que me modulou para contestar as muitas e graves agressões e injustiças políticas contra a minha Gente e a minha Terra, que desde há mais de um século apenas servem para pagar impostos, “para servirem de burros de carga e para ajoelharem, quando passa a procissão”, como escreveu Miguel Torga.

Há coincidências infelizes. E esta da Mitologia Popular Portuguesa, de Alexandre Parafita, aparecer no mês e ano em que a UTAD proclama a criação da Cátedra Saramago, nem lembraria ao diabo, nem ao conjunto de todos os mitos do hemisfério.

Os argumentos não cabem neste espaço. Mas fica a promessa de voltar ao tema para, aqui ou noutro órgão, demonstrar que se a UTAD entendesse criar uma Cátedra deveria ter consultado as muitas e sérias instituições culturais, públicas e privadas, sobre quem mereceria esse estatuto. É que Trás-os-Montes e Alto Douro foi sempre alfobre de muitos e bons escritores. Nem é preciso recorrer aos vivos. Basta citar alguns desde a geração de Camões (que agora se sabe talvez, tenha nascido em Vilar de Nantes, Chaves); a Miguel Torga (a quem tinha sido bichanado o Nobel, se ainda fosse vivo em 1998), a Camilo, ao Abade de Baçal, a Guerra Junqueiro, a Trindade Coelho…

Os Transmontanos, às vezes pecam por serem demasiado hospitaleiros, humildes, generosos e tolerantes. Alexandre Parafita é um exemplo dos muitos Transmontanos, vivos ou mortos, que numa sondagem regional, científica, democrática e popular venceria, por certo, o nobelizado patrono da «Catedral». É transmontano, é um cientista de facto e de direito, contribuiu para a promoção da Cultura portuguesa como jornalista, como professor, como investigador e cidadão que não precisou de fugir do seu país para honrar aqueles que aqui nasceram, vivem e sentem o calor do berço.

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