Uma noite sonhou que tinha morrido, sem se aperceber de ter passado a fronteira. Mas, a certa altura, viu-se junto dos pais, que lhe davam a mão e a levavam com eles, como quando era pequenina. Ao acordar, emocionou-se mergulhando na tristeza com as perdas.
Os pais casaram em janeiro – 1939. Ana Maria havia de nascer em novembro desse mesmo ano. Com os pais, sentia-se sempre segura. Eles foram uma espécie de instituição, um bloco que a apoiou, ensinou e amou incondicionalmente.
O pai era um defensor dos fracos, inconformado com as injustiças. Transmitiu à filha o valor da lealdade, da verdade, o sentido do dever e das responsabilidades. A mãe, essa, era a condutora do barco, navegando com precaução e firmeza, alcançando sempre com segurança um porto de abrigo.
A vida de Ana Maria, pela sua riqueza humana e diversidade de experiências, dava um livro cheio de páginas e glórias, um livro que devia ser publicado e estudado pelos vila-realenses.
Há em todas as famílias episódios quase anedóticos, que são transmitidos, de boca em boca, pelos mais velhos e absorvidos pelos ouvidos atentos da pequenada.
A trisavó materna, Benedita, teve 16 filhos. Muitos chegaram à idade de granjear o seu sustento e, como processo mais proveitoso era o de abanar a árvore das patacas lá do Brasil, os rapazes começaram a trabalhar e abanaram-na com quanta força tinham. Quando regressaram, uns mais abonados do que outros, replantaram-se pelas redondezas da terra dos pais em Arrabães e criaram família, montaram negócios, deram polimento à segunda geração e prosperaram até aos dias de hoje com outros personagens…
A bisavó tomou-se de amores por um rapaz de Tuizendes, de bonito e garboso bigode. Mas as famílias eram inimigas. Resolveram então casar em segredo. Combinaram a fuga tão bem que, na noite aprazada, os irmãos da fugitiva lhes saíram ao caminho armados de varapaus e os levaram à presença dos pais. Os corações amaciaram, e o casório fez-se.
Conheci Ana Maria na Universidade Sénior, como aluna na disciplina de “Música e Canto”, em 2003. Até à cruel pandemia, Ana Maria foi uma aluna exemplar, de dedicação e competência. Uma pessoa afável, solidária, altruísta, escritora e poeta…
Ana Maria Botelho continua a fazer falta…E o seu nome se perpetuará, não apenas nas memórias de quem a conheceu, mas nas sementes da alegria, da coragem e da entrega que plantou em tantos…
Lembro um poema declamado magistralmente por ela: “vento que passas no meu jardim… doido que traças curvas enfim… quebras as tranças do meu festim… vento que passas, tão junto de mim… leva-me, leva-me como anjo Querubim…




