Sábado, 18 de Julho de 2026
Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Ana Maria Botelho – a minha homenagem

Ana Maria Botelho foi, ao longo da sua vida, uma mulher de acumuladas energias, dedicando parte da sua existência ao ensino.

Uma noite sonhou que tinha morrido, sem se aperceber de ter passado a fronteira. Mas, a certa altura, viu-se junto dos pais, que lhe davam a mão e a levavam com eles, como quando era pequenina. Ao acordar, emocionou-se mergulhando na tristeza com as perdas.

Os pais casaram em janeiro – 1939. Ana Maria havia de nascer em novembro desse mesmo ano. Com os pais, sentia-se sempre segura. Eles foram uma espécie de instituição, um bloco que a apoiou, ensinou e amou incondicionalmente.

O pai era um defensor dos fracos, inconformado com as injustiças. Transmitiu à filha o valor da lealdade, da verdade, o sentido do dever e das responsabilidades. A mãe, essa, era a condutora do barco, navegando com precaução e firmeza, alcançando sempre com segurança um porto de abrigo.

A vida de Ana Maria, pela sua riqueza humana e diversidade de experiências, dava um livro cheio de páginas e glórias, um livro que devia ser publicado e estudado pelos vila-realenses.

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Há em todas as famílias episódios quase anedóticos, que são transmitidos, de boca em boca, pelos mais velhos e absorvidos pelos ouvidos atentos da pequenada.

A trisavó materna, Benedita, teve 16 filhos. Muitos chegaram à idade de granjear o seu sustento e, como processo mais proveitoso era o de abanar a árvore das patacas lá do Brasil, os rapazes começaram a trabalhar e abanaram-na com quanta força tinham. Quando regressaram, uns mais abonados do que outros, replantaram-se pelas redondezas da terra dos pais em Arrabães e criaram família, montaram negócios, deram polimento à segunda geração e prosperaram até aos dias de hoje com outros personagens…

A bisavó tomou-se de amores por um rapaz de Tuizendes, de bonito e garboso bigode. Mas as famílias eram inimigas. Resolveram então casar em segredo. Combinaram a fuga tão bem que, na noite aprazada, os irmãos da fugitiva lhes saíram ao caminho armados de varapaus e os levaram à presença dos pais. Os corações amaciaram, e o casório fez-se.

Conheci Ana Maria na Universidade Sénior, como aluna na disciplina de “Música e Canto”, em 2003. Até à cruel pandemia, Ana Maria foi uma aluna exemplar, de dedicação e competência. Uma pessoa afável, solidária, altruísta, escritora e poeta…

Ana Maria Botelho continua a fazer falta…E o seu nome se perpetuará, não apenas nas memórias de quem a conheceu, mas nas sementes da alegria, da coragem e da entrega que plantou em tantos…

Lembro um poema declamado magistralmente por ela: “vento que passas no meu jardim… doido que traças curvas enfim… quebras as tranças do meu festim… vento que passas, tão junto de mim… leva-me, leva-me como anjo Querubim…

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