Domingo, 27 de Novembro de 2022
Barroso da Fonte
Barroso da Fonte
Escritor e Jornalista. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Barroso é um relicário etnográfico

Na Páscoa de 1972, a Gutenberg de Chaves produziu alguns dos primeiros livros, expressamente virados para os Usos e Costumes de Barroso.

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Alguns dos etnógrafos mais cotados dos séculos XIX e XX marcaram pontos quando descobriram a riqueza Barrosã, reproduzida nas alfaias agrícolas, nas roupagens invernosas, nos produtos alimentares, nas coberturas do casario, nos fornos do povo, nas regras do boi comunitário. Só quando a EN 103 chegou à Venda Nova, a Vila da Ponte, ao Barracão e, finalmente, por Gralhós, à Gorda e à sede de concelho, os etnógrafos, arqueólogos, os antropólogos e amigos do ambiente, chegaram aos povoados fronteiriços com a Galiza. A falta de vias de comunicação atrofiava aqueles que por ali nasciam, ali se agarravam ao chão que pisavam e do qual extraíam o renovo para a vida inteira.

Foi assim que aconteceu aos pais, aos avós, aos tetravós, de todos aqueles que assim, por aí atrás, até onde a imaginação pretenda imaginar as nossas origens.

Conservo meia dúzia de cartas de Ferreira de Castro, explicando-me as dificuldades que teve, em 1934, para chegar à Casa do Capitão, em Padornelos, onde se hospedou para escrever o romance Terra Fria. Talvez a UTAD não saiba que foi este escritor o primeiro candidato ao Prémio Nobel da Literatura, antes de se falar de Miguel Torga e, sobretudo de Saramago.

Pretendo dizer que só numa fase tardia, já não os especialistas, mas os antropólogos e seus afins, começaram a chegar às Terras de Barroso, denunciando esse relicário etnográfico no prefácio dos Usos e Costumes de Barroso, publicado na Gutemberg, na Páscoa de 1972.

Faz agora meio século, e coube-me a obrigação moral de pagar a essa gráfica, onde, na altura, eu trabalhava a meio tempo, o custo do livro que além do meu nome, teve mais dois Barrosões: Lourenço Fontes e Alberto Machado. O padre casara-me e o A. Machado fora meu padrinho de casamento. Sempre gostei de ser grato com que me faz bem, sem olhar a quem.

Em 1974, em 1977 e em 1979, Lourenço Fontes publicou o I, II e III volumes da Etnografia Transmontana. E, em 1983, com base nos conhecimentos, nos contributos e no interesse cultural e turístico, criou e realizou os 34 congressos de medicina popular de Vilar de Perdizes que puseram a Região do Alto Tâmega no mapa dos mais badalados acontecimentos populares. Depois disso, ainda teve a feliz iniciativa de criar as «sextas-feiras 13» que o poder político acolheu e bem. Do mesmo modo, destacou um colaborador do Ecomuseu, para apoio técnico ao mediático autor da Etnografia Transmontana – Vol. III – Património Luso-Galaico que a Âncora Editora acaba de apresentar, em Montalegre. Com mais esta meritosa obra celebrou os 82 anos de vida.

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