Recordas-te dos nossos jogos de futebol na estrada, interrompidos pela passagem inoportuna dos carros, normalmente táxis de Constantim, ou alguma barulhenta motorizada?
Depois da decisão “calçados ou descalços”, lá vinha a bola, de farrapos envolvidos numa meia que depressa rodopiava entre nós. Eras sempre dos primeiros a ser escolhido para uma das equipas pela tua corrida imparável e estonteante, o mesmo não acontecia comigo nem com o teu irmão Mário pelos nossos atributos, ou falta deles, eramos uns “podões”, mas tínhamos sempre lugar garantido, fosse como guarda-redes, ou para preencher o plantel.
E as acaloradas discussões de futebol com o Sr. Domingos – Porteiro da “Casa Grande – e ferrenho portista que terminavam por volta do meio-dia quando abalávamos rua acima até à Casa Jorge, posto público dos correios para assistir à soletrada leitura das cartas e aerogramas chegados.
Despertaste cedo para a música e depressa te impuseste como brilhante executante na Banda de Mateus.
Recordo as ternurentas apreciações feitas ao “rapazito”, ao “miúdo” do clarinete ou da requinta, nos arraiais, ou festas de verão onde também a presença do teu irmão Carlos, então vindo de Lisboa, com o seu trombone de varas transmitia grande confiança e representava quase meia banda. O tilintar das barras na Aguarela Popular, faziam as delícias da assistência numa soberba execução do Fernando Pinto, ou do António Claudino… e que maravilha o “silêncio” no trompete do Diamantino Dias!
Os Pintos, os Silveiras, os Claudinos, os Martins foram famílias destacadas que deram vida à banda e a tornaram verdadeira embaixadora de Mateus nas mais diversas paragens.
Em termos musicais, Mateus esteve sempre à frente. E porquê? Pela simples razão de que quando uma criatura vinha ao mundo, já trazia nove meses de música e tu não fugiste à regra.
“Fica a ideia” de que julgo partilhares comigo a amizade de sempre.
20 de abril de 2024 – Carlos”
Na verdade, esta carta, é reveladora da nossa amizade e da alegria que constituía o convívio desse tempo. Revela também que o passado nunca morre quando as amizades são puras e verdadeiras. E o meu amigo Carlos Viana, ao longo dos tempos, deixou-se seduzir pelo fascínio da música. Os dois, sempre viveram em perfeita liberdade e sintonia.
Nunca se desprenderam um do outro.
Esta carta é mais do que memória: é um espelho da alma de quem nunca deixou morrer o que de mais puro nos une: a música.
O seu nome ficará gravado na história de Mateus, pela forma generosa como sempre se entregou aos problemas da comunidade. Obrigado, Carlos!



