Em tempos de pandemia e num momento de notável frustração e de profundo embaraço, o Presidente da República retorquiu “diga aos portugueses para votarem noutro Governo”.
A frase ficará para a história. Se por um lado, o PR demonstra um desconforto latente face à atual maioria governativa, por outro revela a sua total incapacidade e indisponibilidade para a contrariar.
Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito, em 2016, com base na sua exposição mediática e suportado por uma coligação de centro-direita que via nele o Presidente que Cavaco Silva não conseguiu ser.
Afável, comunicador, enérgico e próximo dos cidadãos, o Presidente da República tem um carisma que não abunda no PSD e no CDS e uma imagem cuidadosamente preparada ao longo de décadas.
No entanto, passados quase 5 anos, Marcelo ignorou essa coligação e colou o seu mandato à agenda e à mensagem do Governo socialista, tentando garantir facilmente a sua reeleição.
Esta estratégia foi vantajosa para o PS, pois conseguiu subjugar simultaneamente o Presidente de centro-direita e a toda a esquerda parlamentar foi a fórmula ideal para manter o poder.
Só que a jogada só funciona se todas as peças estiverem em sintonia e o segundo Governo Costa, com todas as suas circunstâncias e idiossincrasias, não tem conseguido agarrar o BE e o PCP.
Ao negligenciar a equidistância da sua função e a famosa “magistratura de influência”, o Presidente escolheu um lado, entrou no jogo político corrente e está a perder o controlo da situação.
A seis meses de eleições presidenciais, é tempo do “Presidente dos afetos” sair da armadilha em que se meteu, renegar aos oportunismos da “real politik” e voltar a ser o Presidente de todos os Portugueses.
O fim do Verão – e da consequente silly season – trouxe um momento raro de lucidez presidencial. Ainda bem.





