Sábado, 30 de Maio de 2026
Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Entre a tasca e o altar

Antes do 25 de Abril havia, numa aldeia próxima de Mateus, uma tasca que era meio loja, meio armazém, meio botequim.

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No fundo, um pouco de tribunal e confessionário onde se vendia de tudo: desde fósforos a bacalhau, passando por vinho a granel, azeite e açúcar.

Quase todos os habitantes lá iam, apesar de saberem muito bem que o azeite, além de mal medido, tinha mixórdia; que o vinho era batizado; que um quilo de açúcar nunca era um quilo inteiro.

A tasqueira tinha um rol mais falso do que Judas, mas isso não a impedia de trepar na vida e medrar. Mesmo assim, os fregueses voltavam sempre, como moscas atraídas ao doce ou ao vinagre.

Emprestava dinheiro, mas sempre a juros, e com isso ficou quase rica. Assim, os filhos foram estudar, tiraram diplomas e conseguiram bons empregos. Também vender fiado era um excelente negócio: ao fim do mês, nas contas, havia sempre desvios… prejuízo certo para os fregueses, muitos deles sem saberem ler nem escrever. O marido da tasqueira, esse, não se metia em contas nem em negócios. Passava a vida quase sempre com o seu copito na mão, interrompendo apenas para uma sesta ou para sacudir as moscas da boca a cheirar a vinho.

A senhora recebia ainda o Jornal de Notícias que o deixava em cima do balcão, para quem quisesse fingir que lia. Não raras vezes, nas páginas da religião, surgiam notícias inflamadas a apelar a procissões para pedir a Deus a conversão da Rússia. Vai daí, o padre da aldeia, homem de grandes convicções e ainda maior eloquência, pregou várias homilias cheias de fogo, garantindo que, com fé, Moscovo havia de cair aos pés de Cristo. Tanta era a unção que algumas mulheres se persignavam com força, revirando os olhos para o alto, invocando não só Deus, mas também santos de maior confiança e eficácia.

Uma das mais devotas, que ajudava o padre na confeção das hóstias, no abastecimento do vinho e no ajeitamento da batina, murmurou: – que Deus nos ajude, que Deus nos acuda, e que o senhor padre faça a procissão!

O padre, ouvindo-a, baixou os óculos graduados e fitou-a demoradamente. Era, nem mais nem menos, a própria tasqueira, a mesma a quem ele também comprava fiado, num gesto de “solidariedade” para com os pobres e para com a sua própria carteira.

E assim foi: a procissão organizou-se com pompa e circunstância. A banda tocou, as crianças iam de anjinhos, o povo avançava em passo piedoso. Ficaram em casa apenas os doentes, os entrevados e dois estudantes com exames no dia seguinte, o que, claro, bastou para que se começasse a cochichar que os rapazes eram comunistas.

E assim, entre rezas e mexericos, a tasqueira continuou a encher os bolsos, o padre a salvar almas, e a Rússia… ao que se sabe, nunca se converteu.

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