Os olhos da plateia arregalam-se, os pescoços esticam-se, e os corações aceleram. Ele não precisa realizar o truque, já conquistou o seu público através do mais poderoso dos feitiços: a expectativa.
Criar expectativas é uma arte ancestral, tão antiga quanto a primeira promessa feita sob as estrelas. É a arquitetura invisível das emoções humanas, a construção de pontes entre o que é e o que poderia ser.
Vem esta introdução, a propósito da recente campanha eleitoral autárquica vivida no Concelho (e no País).
As propostas das candidaturas, variaram entre as aparentemente inexequíveis, as expectáveis e as banais, sendo que houve candidaturas que não apresentaram propostas (talvez eu não as tenha ouvido, nem lido). No fundo, geraram expectativas que dificilmente serão auditadas, já que temos memória curta e não cobramos pelas falsas expectativas criadas.
A expectativa bem construída segue uma coreografia precisa. Primeiro, o convite à participação: oferecemos fragmentos para que o outro complete com suas próprias cores. Um chef não descreve apenas o prato, evoca o crocante da massa, o aroma das especiarias, o derretimento do queijo, convida os sentidos. Um líder não apresenta apenas metas, mas pinta quadros vividos do sucesso coletivo.
Mas a verdadeira maestria está na personalização. Observamos o que move cada pessoa, segurança, reconhecimento, aventura e moldamos as nossas promessas de acordo. Para alguns, construímos castelos no ar; para outros, alicerces sólidos no chão.
Há, porém, uma linha ténue entre a expectativa que eleva e a que dececiona. O mesmo mecanismo que constrói sonhos pode erguer abismos. Por isso, os verdadeiros artesãos da expectativa dominam também a arte da sua gestão, sabem quando elevar o tom e quando temperar o entusiasmo com notas de realidade.
Nas mãos de um contador de histórias, a expectativa torna o ouvinte cúmplice da narrativa. Nas mãos de um líder, converte seguidores em protagonistas de uma visão partilhada.
Criar expectativas nas pessoas é uma arte que vai muito além de simples promessas ou palavras vazias.
Numa campanha eleitoral, não se vende apenas ilusões, planta-se essencialmente confiança.
O aspeto fundamental reside na consistência entre o discurso e a ação. As pessoas tendem a desenvolver expectativas não apenas com base no que ouvem, mas também, e sobretudo, no que observam. A coerência constrói confiança, e a confiança é o alicerce sobre o qual expectativas realistas e positivas podem ser firmemente estabelecidas.
É crucial reconhecer que a criação de expectativas deve estar sempre alinhada com a capacidade de as cumprir. Prometer mais do que se pode entregar, é uma estratégia de curto prazo com consequências negativas a longo termo. Pelo contrário, estabelecer metas desafiadoras mas realizáveis, e depois superá-las, gera um ciclo virtuoso de confiança e satisfação.
Prometo estar atento.





