Ia a caminho da Escola. Nessa manhã abri a janela, era primavera e fiquei surpreendido com aquilo que observava. Estava linda a manhã. Havia um vento fresco e perfumado e o sol amarelão mostrava-se inteiro e soberano. No dia anterior sentia o rigor do inverno, chuva e barro amarelo, vidros embaciados.
Já em Vila Pouca, alunos, funcionários e professores estavam ainda mais afáveis e sorridentes, falavam alto e riam em liberdade. E a escola parecia um viveiro de passarinhos chilreadores. Uma funcionária – D. Celeste- já no bar, cantarolava uma ária sem estribilho, preparando-me já a habitual torradinha e a meia de leite. Também ela sentia o influxo da nova estação.
Padre Teles chegava eufórico e com as chaves do carro a tilintar, espraiava-se em palavras sorridentes: “Chegou a primavera, ergam os olhos a Deus…”. A Irmã Maria de Lurdes disparou: “este padre Teles é imparável, mas tem sempre piada…”. Valdemar Chaves esboçava um sorriso bonacheirão e conciliador…
Quando entrei para a sala de aulas levei vários minutos para silenciar os alunos, também eles estavam excitados no despontar de um lindo dia de primavera.
Lembro que nessa aula cantámos o Hino Nacional em memória dos mortos da guerra do ultramar por diretiva do governo. As crianças de pé espraiavam-se na inconsciência de uma letra que nada lhes dizia. Perante a música, um pouco berrada, outras vozes no corredor se associaram e os sons finais foram troantes dissolvendo-se na luminosidade do ar primaveril.
Padre António Garcia que passava naquele momento no corredor pediu-me que voltasse a cantar o Hino. E ele se estilhaçou de novo, agora com mais fervor, mais sentido patriótico, apanágio do padre António. E os sons transbordavam para lá do edifício chegando ao vale, ultrapassando o morro virado a norte.
A música era o elo de união entre todos os seres vivos da Escola. No vale, logo abaixo, zurravam burros a compasso como que também eles conhecessem o símbolo maior da Pátria.
Agora, o céu era pátrio, azul, céu de primavera com poucas nuvens que pareciam chumaços de algodão esfiapado.
E os meus alunos cantaram com entusiasmo, desafiando a própria morte daqueles que morreram na ferocidade inglória dos combates.
Aquele dia de aulas marcou um pedaço do percurso da minha vida profissional.
Vila Pouca de Aguiar era uma espécie de santuário onde se respirava educação no conforto inebriante e mensageiro de um futuro feliz para todos. O diretor, Armando Sarmento, foi ele o mentor, o obreiro daquela instituição, usando sempre o diapasão da conciliação entre todos, para que a Escola fosse um lugar de vanguarda e afirmação no conjunto das demais.






