Um dos mais famosos escritor-médico foi Anton Tchekov, russo, do século XIX, (autor de Jardim das Cerejeiras, O Tio Vânia, As Três Irmãs), que exercia medicina durante o dia e escrevia à noite e, com certeza, por isso dizia “ter a medicina como mulher e a literatura como amante. Quando me canso de uma, passo a noite com a outra”. Embora tivesse exercido os dois ofícios a verdade é que se distinguiu como escritor e assim ficou na história. A lista nacional e internacional de ambos é extensa e ilustre. Não podendo falar de todos escolhi dois portugueses pelo conhecimento que tenho da sua obra. Um escritor-médico, Miguel Torga (MT) e um médico-escritor, João Lobo Antunes. Acresce o facto que conheci bem MT, com quem privei ao longo de muitos anos de convívio que me permitiram apreciar a sua sabedoria e colher ensinamentos preciosos.
Em relação a MT a denominação de escritor médico parece-nos óbvia até porque foi uma opção do próprio. Médico, foi Adolfo Rocha que se licenciou em 1933. No ano seguinte, 1934, “nasce” MT com público anúncio em “A Terceira Voz”, livro que tem prefácio de Adolfo Rocha: “Com um ósculo vo-lo entrego. Chama-se Miguel Torga. Somos irmãos e temos a mesma riqueza”. Assim Adolfo Correia da Rocha, em 1934, com 27 anos, auto define-se pelo pseudónimo que criou: Miguel e Torga. Miguel em homenagem a 2 grandes vultos da cultura ibérica: Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno. Torga (Erica lusitânica) designação nortenha de urze, planta brava da montanha”. Adolfo Rocha é o médico otorrino com consultório no Largo da Portagem em Coimbra bem sinalizado pela respetiva placa. Miguel Torga é o poeta, o contista, o escritor que faz nome e carreira na literatura portuguesa! A sua dupla condição é assim sintetizada: “A caneta que escreve e a que prescreve revezam-se harmoniosamente na mesma mão”. Claro que MT não esquece a medicina à qual se vai referindo episodicamente reafirmando o quão importante era na sua vida: “A medicina, uma atividade secundária na minha vida? Enganam-se redondamente. Sempre que visto esta bata sinto-me paramentado…” Mas depois lá vinha: “Certamente que sou poeta antes de mais… Canto antes de dar por isso….”. MT “era um burilador da língua e um escritor de sínteses” e na arte da escrita foi um dos maiores da nossa literatura como foi reconhecido por Torrente Ballester professor catedrático de literatura e um dos mais aclamados escritores espanhóis do século passado, que a propósito da literatura portuguesa declarou em 1986: “Uma literatura que produz no mesmo século dois vultos do calibre de Pessoa e de Torga, pode considerar-se uma literatura de excelente saúde”.
Miguel Torga, vulto maior da nossa literatura ofuscou e mesmo anulou o otorrino Adolfo Rocha. Este, competente e sério na arte médica, não atingiu a grandeza do escritor e poeta MT que mereceu as seguintes palavras de Jorge Amado: “Se há alguém que escreve em português e merece o Prémio Nobel é Miguel Torga, e não eu”. Foi proposto para o Nobel em 1960 e considerado mais tarde, mas por influências políticas não teve sucesso. MT deixou uma extensa obra que não tem qualquer relação com a Medicina: 16 Diários, A Criação do Mundo, obra autobiográfica repartida por 6 volumes, Os Bichos, A Vindima, Contos, etc. A obra de Torga é tão genuinamente nacional e patriótica que Manuel Alegre o eleva a símbolo da nação, ao dizer: “É preciso ler Torga para entender Portugal”.





