A nossa identidade é a nossa história de vida – quem somos, quem são os nossos, o que fomos, o que fizemos, como o fizemos, os nossos méritos, os nossos erros, etc. Mas a reforçar a identidade há aquilo a que chamamos “marcas identitárias”. Cada um de nós tem as suas mais ou menos relevantes, mas sempre importantes na nossa formação e no nosso percurso de vida.
Por exemplo no meu caso as minhas principais marcas identitárias estão relacionadas, principalmente, com o meu pai (Coimbra, Medicina), com minha mãe (Braga), com minha avó (Vilar de Maçada, Douro). De facto, nasci em Coimbra porque foi aí que meu pai (natural do Rio de Janeiro), se licenciou e onde exerceu medicina. Também eu me fiz médico, e com a mesma especialidade, urologia, do meu progenitor e trabalhando nas mesmas instituições a que meu pai sempre se dedicou, Faculdade de Medicina e o seu Hospital da Universidade. A ligação a Vilar de Maçada/Vila Real e ao Douro vem das raízes da minha avó paterna, Maria Luísa.
Mas as “marcas identitárias” não são só de pessoas, mas igualmente dos países, das regiões, das cidades e de um modo geral dos povos. Habitualmente relacionam-se com grandes feitos que ocupam um lugar na História tendo-se ficado a dever a realizações individuais ou coletivas.
O nosso Portugal heroico e aventureiro, das descobertas, que deu “novos mundos ao mundo”, foi cantado por Luís de Camões. Esta é uma “marca” que celebramos a 10 de junho (dia em que morreu Camões, em 1580) e que orgulhosamente designamos por Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Para ficarmos com uma pequena ideia da grandeza do poeta dos Lusíadas, basta-nos recorrer a Miguel Torga, outro grande português, e às palavras que proferiu em sua homenagem, em Macau, no dia de Portugal, em 1989.
A história mental da humanidade regista obras famosas: a de Gilgamesh (A epopeia de Gilgamesh um longo poema), a Ilíada (de Homero), a Odisseia (atribuída a Homero), a Eneida (de Virgílio), e a própria Divina Comédia (de Dante), que é uma epopeia de almas. Mas nenhuma como os Lusíadas cantou a natureza com tanta naturalidade e fragrância, exprimiu o homem tão de acordo com o entendimento que ele hoje tem de si mesmo, e celebrou com igual justiça e perenidade um esforço civilizacional coletivo… Como salienta Torga, enquanto Homero, Virgílio e Ulisses cantaram semideuses e figuras de ficção Camões, pelo contrário,… pinta indivíduos coetâneos em ação, que se chamam Gamas, Albuquerques, Castros, Leonardos ou Velosos e atuam por conta própria…
No século passado vários heróis se destacaram na defesa dos seus povos e das suas pátrias, deixando a sua marca na História. Na África do Sul, Nelson Mandela dedicou a sua vida a uma causa, o fim da segregação racial imposta pela minoria branca aos negros (apartheid), o que lhe valeu 27 anos de cativeiro. Após a sua libertação foi eleito Presidente da República e soube evitar um banho de sangue conseguindo impor a paz e a sã convivência entre brancos e negros na jovem democracia sul-africana.
Winston Churchill foi o Primeiro-Ministro britânico que conduziu a Inglaterra e o povo inglês à vitória final na guerra contra Hitler e o nazismo. É célebre o seu discurso no parlamento, em maio de 1940, quando iniciou as funções como chefe do governo, em que declarou: “Nada mais tenho para oferecer do que trabalho, sangue, suor e lágrimas”.
Ghandi e Gorbachev também foram heróis e assim figuram na galeria dos grandes na História Contemporânea.
Os Homens, segundo Brecht, dividem-se em quatro grupos: “Há homens que lutam um dia e são bons. Há outros que lutam um ano e são melhores. Há aqueles que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida, esses são os imprescindíveis”. Os nossos heróis fazem parte do último grupo.



