Sexta-feira, 26 de Novembro de 2021
Barroso da Fonte
Escritor e Jornalista. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Nadir Afonso um transmontano mundial

Não sei quem teve a ideia. Mas no último dia 18, o novo avião da TAP, Airbus A321neo CS-TJN, foi batizado com o nome próprio e artístico do arquiteto Flaviense Nadir Afonso.

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Seu pai Artur Maria Afonso nasceu em Montalegre. Sua mãe, Palmira Rodrigues, nasceu no concelho de Boticas. Mas foi em Chaves que nasceu e foi sepultado. Como pintor venceu na vida, embora a arquitetura fosse a sua informação técnica. Viveu entre 4/12/1920 e faleceu em 11/12/2013. Noventa e três anos de vida ao serviço da arte cénica, a partir da Escola Superior de Belas Artes, do Porto. Residiu em Paris, onde conviveu com renomados artistas; foi ao Brasil, mas regressou a Chaves, onde constituiu família com a também transmontana Laura Esteves Afonso.

Tiveram dois filhos: Augusto e Artur. Ora em Lisboa, onde os quatro consolidaram as suas raízes formativas, ora em Chaves, para liderarem os dois polos de arte cénica: o museu Nadir Afonso, em Chaves, em edifício nobre, da autoria do arquiteto Siza Vieira, ora em Boticas, no Centro de arte Contemporânea.

A região do Alto Tâmega, com estes dois sítos privilegiados em arte contemporânea, preenche um vazio que até agora era visível, num meio ruralizado, quase desértico e com um potencial turístico, numa fronteira riquíssima pela sua principal porta de entrada e de saída, da e para a Europa.

O poder democrático empobreceu, fatidicamente, esta importante fronteira luso-galaica ao matar a agricultura de subsistência; ao encerrar a linha férrea, sem contrapartidas, ao permitir a construção do maior índice de barragens, no concelho mais pobre do distrito, ao vender, por umas cascas de alho as serras e os montes da Terra Fria que em meio século perdeu 25 mil habitantes. O concelho de Montalegre tinha, nos anos cinquenta, 30 mil almas. Os melhores vales e planuras foram submersos, a emigração levou todos os obreiros mais válidos, a guerra do ultramar foi o golpe de morte para a desertificação. As terras de Barroso ficaram depenadas, como descabelados estão os sobreviventes. Que continuam a servir-se pelos «carreiros» do Salazarismo mais duro e mais ingrato. A EN 103, entre Braga – Montalegre –Boticas – Chaves –Vinhais – Bragança, nem um palmo foi corrigido nesses estradões, mais esfarrapados do que os trilhos africanos.

Para a morte cerebral faltava o lítio que será – agora – a facada no coração de um povo heroico, que é roubado, explorado e esquartejado, por aqueles que extinguiram o comboio, «mergulharam» os melhores prados que alimentavam a vitela barrosã, os porcos, os cabritos os cordeiros e até os burros.

Urge reverter tudo o que desapareceu por artes demoníacas.

Já conhecemos todos o preço da democracia. Salvemos a cultura, a ciência e o orgulho de ser português.

Nadir Afonso cresceu na arte e floresce na memória. Este artista transmontano é uma réstia que através dos céus vai levar aos astros o nome da nossa Terra. 

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