Terça-feira, 29 de Novembro de 2022
Paulo Reis Mourão
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Nós – os derrotados

Desta guerra, não haverá vencedores. Eventualmente das outras também não houve. Mas desta ninguém ganhará.

-PUB-

Se a Rússia conseguir ocupar/pacificar/desnazificar a Ucrânia, que paz deixará para os vizinhos da Ucrânia e da Rússia? Um dia, Putin morrerá, mas a hipótese de um gigante esmagar um pequeno vizinho ficará sempre latente enquanto falarmos deste conflito, enquanto a História falar deste conflito. A hipótese de um “Império” nunca ficar saciado existirá sempre no cardápio. A hipótese de nunca chegar a uma economia de extensão, a sua área deixará de ser recordação histórica para passar a ser recorrência geoestratégica.

Se a Ucrânia conseguir que a Rússia assine um cessar das hostilidades, que exemplo deixámos acontecer? O de os “blocos de união económica” não conseguirem amadurecer e jamais deixarem a figura jurídica cómoda da “união de facto”. O da união económica ter alimentado valores anti belicistas mas não ter conseguido que as guerras surgissem nas brechas políticas derivadas de lideranças amorfas e longe da grandeza dos seus avós. 

Hoje, um cidadão da União Europeia aleatoriamente escolhido, um cidadão russo e um norte-americano são inquiridos. De todos, o menos belicista é o da União Europeia. Também é ele o mais solidário, o mais viajado, o que tem consumos mais sustentáveis, o menos religioso, com menos filhos e o mais envelhecido. 

Confesso que, para lá da crueza do conflito, há algo que me surpreendeu a partir dessa Quinta-Feira Negra, de 24 de fevereiro de 2022. A angústia que senti em muitos dos meus alunos. As inquietações nas suas dúvidas. A incerteza do seu olhar. Contei-lhes, numa tentativa própria de encontrar palavras para construir ideias sobre os despojos das respostas, a história do Guerra e Paz, do Tolstoi. Esse monumento escrito sobre o fascínio, sobre os mitos que depressa viram desilusão quando conhecemos a humanidade (não o humanismo) dos mitos – quando percebemos a arrogância de Napoleão, a liquidez do mito do consumo per capita ou a desfaçatez do mito de trocarmos o dinheiro por tudo.

O mediatismo deste conflito leva-nos a recordar que um homem numa guerra tanto é morto por uma catanada (em Cabo Delgado), como por uma bala tutsi ou por um míssil russo. Eventualmente, para o mito do nosso consumo per capita, a catanada de Cabo Delgado ou a bala tutsi não abalem tanto como o míssil russo. Eventualmente, depois do abrandamento da pandemia de Covid-19, como depois da Gripe Antonina, percebemos como os romanos de então, que os que viviam por valores diferentes dos nossos se arriscam a ocupar os nossos espaços desvalorizados. 

Nesta primeira meia semana de conflito, fluxos como os dos refugiados do Mediterrâneo deixaram de ser contados em favor da emergência dos refugiados dos Urais. Questões como o equilíbrio ambiental deixaram de ser discutidos devido ao desastre humanitário no leste europeu. Dossiers como o PRR passaram para perguntas em favor de como ajudar (a Ucrânia) sem ofender (a Rússia). E sobretudo como levar à despopularização de Putin (com sanções de efeitos a prazo) e até que ponto os ditadores se importam com a popularidade junto do povo que recebe narrativas diferentes.

Uma coisa é certa – quer russos, quer ucranianos ainda não ouviram falar muito bem – ou grande coisa – de nós por estes dias.

Mais Lidas

Subscreva a newsletter

Para estar atualizado(a) com as notícias mais relevantes da região.