Dou por mim, muitas vezes, a pensar e a tentar entender, a militância partidária. As razões para a mesma são numerosas e a verdade é que nem sempre pelos melhores motivos, já que as intenções estão intrinsecamente ligadas aos objetivos de cada um.
Na verdade, a militância é, em primeiro lugar, um ato de doação, desapego e altruísmo, que é o contrário do egoísmo e individualismo.
Militância é entrega e aposta, compromisso e voluntarismo, mas não é indolor. Ninguém se transforma sozinho. Isso é uma ilusão de omnipotência. Não há transformação doce, suave, meiga, indolor. Só mudamos quando entramos em crise, e ficamos insatisfeitos, em primeiro lugar, connosco mesmos. O gatilho da mudança é a interação com os outros, e a disposição interna, subjetiva, de querer ser melhor.
A propósito deste tema, cruzei-me com inúmeros artigos, dos quais vou destacar um, dado que, além de me identificar com o texto, é elucidativo e serve que nem uma luva a alguém…. ao militante imaginário.
É um artigo do brasileiro Arnaldo Jabor, já falecido em 2022, que, entre outras coisas, foi cineasta, jornalista e escritor.
A razão de não pôr aspas, é porque, apesar do texto ter mais de 50% de palavras dele, também tem ajustes meus.
Cá vai.
O militante imaginário só pensa em si.
O militante imaginário vive em lua de mel consigo mesmo, porque ele é a verdade de um tempo, mesmo que ele se autocritique, mesmo que ele anuncie as suas dúvidas teóricas com a certeza dos profetas.
Ele é uma espécie de herói masoquista, um orgulhoso da impotência, ele tem o charme invencível do derrotado que não desiste.
O militante imaginário é autossuficiente, ele é o povo de si mesmo. Ele é uma espécie de herói existencial. Quanto mais erro houver, mais comprovação de seu sucesso; quanto mais derrota, mais brilha a sua solidão.
A vitória é fracasso e o fracasso, vitória.
O militante imaginário aguenta qualquer coisa, menos o próprio sucesso. A vitória seria o fim do sonho e o início de um inferno.
Quanto mais a realidade o nega, mais um novo tipo de progressismo tem de ser criado, tão puro teoricamente que não corra o risco de ser jamais testado.
Assim, o corpo do militante imaginário segrega um santo óleo que o protege contra o mundo. E então a política vira uma estética da personalidade.
O militante imaginário odeia meios; só gosta de fins. Os meios são chatos, dão trabalho.
Ultimamente, o militante imaginário anda mal. Todas as evidências das suas ilusões estão a cair. Aí, o militante imaginário produz mais fé. Quanto mais fracasso, mais fé.
No fundo, o militante imaginário acha-se um homem bom. Mas atrapalha…. como atrapalha…
Não temos futuro, enquanto o militante imaginário pairar sobre o partido.





