A pandemia chocou com o calendário e este travestiu-se com os caprichos do boletim meteorológico. Vivemos em alvoroço. E a guerra entranhou-se-nos no corpo como a gripe dos macacos. Que fazer?
Apetece-me desertar. Mas já não existem paraísos, porque Putin é o rei da floresta. Hesito! Mas opto por falar de livros.
Com a chegada da era digital evaporou-se o gosto pela leitura. Uma boa parte da imprensa escrita, mormente a chamada regional, feneceu. Foi tiro e queda como na Ucrânia. As revistas cor-de-rosa proliferam aos fins de semana. Avieram as online.
Os livros escolares ficaram em banho-maria. Mas têm os dias contados. Os técnicos estão infetados pelo vírus da concorrência. As redes sociais e a prevalência dos telefones que prendem velhos e novos e quase extinguem o diálogo entre famílias inteiras, ganharam a maioridade e até a Língua Portuguesa que, em 5 de maio de 2019, foi proclamada como a 5ª mais falada do globo, irá sofrer a sua pureza virginal.
Esta crise ciclópica que a viragem do século provocou, extinguiu de morte os suplementos literários, de saudosa memória. Essa gama de produtos culturais, encartados nos grandes órgãos como: o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias, o Artes e Letras, do Primeiro de Janeiro, o Século Ilustrado e outros que marcaram a minha geração, quando em 1953, me intrometi na Voz de Trás-os-Montes, até hoje. Já prometi a mim mesmo que ao completar 70 anos de militância jornalística, deixarei, em paz e sossego, os meus leitores.
É neste clima de sinceridade intelectual que lamento o desuso do espaço que os jornais dedicavam aos livros e autores que se iam publicando, regionalmente. Nisto, como em muitas outras confrontações, só os urbanos eram badalados. Não por serem melhores, mas por viverem junto dessas tribunas.
Cito, agora e aqui, alguns autores e seus últimos livros: Custódio Montes, (Juiz Conselheiro, Montalegre Poesia 6º título, desde 2012): Regresso; Manuel António Gouveia (Mestre em Ciências da Educação, Alfândega da Fé) Memórias de Fonte da Parada e outros contos; Dias Vieira, (Coronel da GNR- Montalegre): Regras para Bem Viver, do Prof. Manuel Fernandes; e Carvalho de Moura, ex-alferes miliciano; prestou serviço em Moçambique, de 1967/69, e enfrentou a maior tragédia na travessia do Rio Zambeze, dia 21/6/1969).
Morreram 101 militares, sete civis e dezenas e viaturas militares e civis. Tudo se foi. O alferes conta tudo nestas160 páginas. Já passaram 53 anos.
Só o Correio da Manhã, meio século depois, o lembrou. Culpados? Ninguém!



