Viver em sociedade passou a significar viver num cenário de risco, incerteza e angústia. Esta realidade aplica-se também à delinquência juvenil, tema que tem suscitado múltiplas opiniões e gerado discursos inflamados que apontam o dedo à alegada incapacidade das famílias e escolas em conter o fenómeno. Em resposta, muitos defendem políticas de “tolerância zero” apostando numa abordagem punitiva e repressiva que dificilmente resolve as causas profundas do problema.
Vivemos numa era dominada por ecrãs, onde as redes sociais se tornaram fontes absolutas de verdade. A proximidade da informação poderia ser uma vantagem, mas nem sempre é assim. A delinquência juvenil tem ocupado as manchetes com títulos a associar a figura do “jovem delinquente”, a desordem e medo, o que tem provocado um pânico generalizado.
É essencial que se repense os rótulos que enchem os títulos das notícias. Quando um jovem é identificado como “delinquente”,”perigoso” ou “vândalo”, essa rotulagem afeta a forma como ele é percecionado em todos os contextos em que se insere – a escola, a família e comunidade. Com o tempo, essa identidade imposta pode ser interiorizada pelo próprio, dificultando a sua reintegração e empurrando-o para uma trajetória delinquente.
A verdade é que, não raras vezes, os media não se limitam a descrever os factos, mas também a amplificar e dramatizar a situação em concreto, contribuindo para uma perceção irrealista da verdade. Esta abordagem faz disparar o alarme social e faz com que os jovens sejam percecionados como uma ameaça para a sociedade, antes mesmo de serem vistos como cidadãos. Assim, contribui-se para a sua estigmatização, ainda que a sua ação real tenha sido pontual, e, por vezes, pouco grave. As redes sociais, por sua vez, intensificam esse efeito, com a disseminação de informação descontextualizada, multiplicação de opiniões sem filtro, pressão para punições exemplares, e falta de empatia, o que não dá espaço para compreender as causas sociais e estruturais que estão na origem destes comportamentos.
Importa vincar que a esmagadora maioria dos jovens não pratica crimes e os que praticam algum tipo de ilícito, muitas vezes vivem em situação de vulnerabilidade e exclusão social, pelo que, o foco deveria estar na prevenção e inclusão e não na dramatização e repressão sensacionalista.
Os media como veículos de informação e formadores de opinião, têm um papel fundamental e uma responsabilidade ética de noticiar o crime sem potenciar pânico nem alarme social.







