Sábado, 2 de Julho de 2022

Trás-os-Montes

Dois livros, recentes, de autores transmontanos falam-nos da nossa terra o que é motivo para leitura obrigatória.

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“Do Pinhão ao Porto” de António Tavares-Teles e “Trás-os-Montes, o Nordeste” de J. Rentes de Carvalho. A. Tavares-Teles é natural do Pinhão e   lembro-me dele quando há 10, 15 anos fazia comentários desportivos na televisão onde defendia o seu F.C. do Porto. J. Rentes de Carvalho, embora tendo nascido em Gaia, tem as suas origens no distrito de Bragança, em Estevais, concelho de Mogadouro. Há muitos anos a viver em Amesterdão, na Holanda, é escritor já com alguma obra publicada, embora só nos últimos anos seja conhecido em Portugal. O livro de Tavares-Teles é um conjunto de crónicas sobre o Douro, rio e região, em que se relatam aspetos pitorescos, factos históricos, usos e costumes mais antigos, entremeados por episódios políticos do antigamente. Lá se lembram os rabelos e o transporte fluvial do vinho tratado até Gaia. Também há lugar para pôr em destaque alguns durienses que se salientaram na defesa desta região que todos amamos. Um livro com muito interesse para conhecer mais sobre o Doiro e a sua faina nos tempos duros dos anos 40 a 70. 

Rentes de Carvalho (RC) traça-nos um panorama do nordeste transmontano, da sua meninice, nos anos 40 e 50 do século passado. A miséria e o atraso desta região do país, naquela época, são cruelmente retratados pelo autor que, carregando no dramatismo, destaca a realidade social de então, comparando-a mesmo com algo do que se passava na idade média. Mas este retrato impiedoso tem a vantagem de constituir um excelente ponto de partida para estabelecermos a comparação com a realidade de hoje e com os extraordinários progressos conseguidos. Metaforicamente falando, a diferença é como da noite para o dia. E aqui é que eu discordo profundamente de RC que, mesmo perante a gigantesca transformação que, também, beneficiou o nordeste transmontano, continua com um discurso algo pessimista embora lá admita “Mudanças vagarosas, é certo, mas de alguma esperança…”. Não tendo uma memória tão fresca do Trás-os-Montes da infância de RC, sou mais jovem, lembro-me de muitas das realidades de então que vi e vivi – as casas (?) eram uns barracões de pedras sem divisões, sem cozinha e sem casa de banho, tendo por baixo a loja dos animais. As ruas (?) eram uma estrumeira, a higiene quase não existia e daí as doenças! Hoje tudo mudou, para muito melhor e tudo é diferente. Há eletricidade, água canalizada, saneamento e esgotos com as respetivas estações de tratamento. Todas as casas têm casa de banho, eletrodomésticos, TV e muitas têm carro à porta. A democratização do ensino é um facto e atualmente só não tira um curso quem não quer estudar. As vias de comunicação sofreram uma revolução. De Coimbra, cidade onde sempre residi, demorávamos 5, 6 horas a chegar a Vilar de Maçada. Hoje demoro a fazer o mesmo percurso cerca de 2,15 h! De Bragança a Lisboa como diz a canção “são nove horas de viagem…”. Eram, porque hoje de Bragança à capital demora-se 4 a 5 horas! Ou seja, metade do tempo. Esta discordância com Rentes de Carvalho não belisca minimamente o respeito e a admiração que tenho pelo transmontano ilustre e pelo escritor talentoso que orgulha a nossa terra. Também discordo deste nosso conterrâneo em relação ao mirante mais espetacular do Douro que para ele é Carrascalinho, e que na minha modesta opinião considero ser S. Leonardo da Galafura, que aprendi conhecer com Torga. São maneiras de ver diferentes, mas no fundo move-nos a mesma intenção, ver o nosso Trás-os-Montes cada vez mais moderno e progressivo. As mudanças verificadas nos últimos 20 anos, comparativamente aos tempos antigos, enquadram-se naquilo que Eduardo Lourenço salienta: “cada um de nós mudava mais depressa que o mundo. Agora é como se o mundo, ou ao menos o mundo saído das mãos do homem, mudasse mais rapidamente que os homens”. É a meu ver o que se tem passado com Trás-os-Montes.

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