Em cima, como mercadoria de alta qualidade, iam os músicos empilhados, mas felizes com a viagem e com o fardamento que envergavam… Junto do motorista, iam o Mestre Ilídio e o Contramestre Joaquim do Pinto…Bem à vista, como troféu e emblema, o bombo mostrava a sua imagem, a sua raça e a sua aura de importância.
Banda sem bombo, não era banda e o seu tocador era considerado por todos como um elemento-chave no conjunto dos demais… sim, o homem do bombo, distraía-se muitas vezes na bebida, emborcava com prazer, mas, ao mesmo tempo, era sempre alguém que dava ao conjunto a estampa de uma boa disposição, o mote de largos sorrisos e gargalhadas.
As viagens para longe na camioneta da Borrona, proporcionavam momentos únicos de camaradagem, laços de afeto e cumplicidades de vária grandeza. Os músicos, faziam-se transportar com agasalhos para o corpo e proteção para os instrumentos…sim, o instrumento de cada um, funcionava como algo valioso: pérola e relíquia, pois nas festas, cada músico exibia a sua arte com a chama do orgulho, e a luz da paixão a Mateus…para alguns, mais do que proteger o corpo nas noites frias, importava cuidar do seu instrumento…
Pelas janelas da camioneta, desfilavam montes e vales, aldeias perdidas no tempo, onde o silêncio só era interrompido pelo rodar das rodas, pelo roncar adormecido da camioneta e pela alegria dos músicos que seguiam viagem.
As paisagens, sempre novas e sempre as mesmas, acompanhavam os viajantes como um cenário vivo, cúmplice das melodias que haveriam de ecoar nas festas e romarias.
Todos quiseram ficar para a fotografia, como testemunho da sua passagem na vida pela Banda de Mateus… todos, todos, orgulhosamente a olharem para o fotógrafo para mostrassem aos vindouros o orgulho de vestirem uma farda que galvanizava o espírito e alimentava a alma para o resto das suas vidas.
Esta histórica fotografia, ainda hoje exposta na casa de ensaio, resiste ao passar do tempo. Bem protegida, cada olhar que nela pousa reacende memórias, desperta sentimentos e reaviva histórias que, de outra forma, poderiam esmorecer no esquecimento.
Não é apenas uma imagem presa a uma moldura; é um portal para um tempo que continua vivo na lembrança dos que por ali passaram. Há uma espécie de magia silenciosa no modo como ela une gerações – os que fizeram, os que fazem e os que farão parte desta jornada.
O tempo nunca a apagará. Cada vez que alguém a contempla, um elo invisível se forma entre passado e presente, garantindo que o futuro continuará a ser tecido com os mesmos laços de dedicação, paixão e saudade. Enquanto houver quem olhe, sinta e recorde, esta fotografia nunca será apenas uma relíquia do passado, mas sim uma ponte para tudo o que ainda está por vir.





