Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2026
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Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Valdemar Chaves: a música é uma constante na sua vida

Há dias ouvi o Allegretto da Segunda Sinfonia de Beethoven e em mim tudo se fundiu de forma cintilante…

Ouvi este Segundo Andamento sem respirar, de olhos fechados para absorver todas as vibrações… Há criações artísticas que nos transportam para o mundo do indizível. Há músicas que nos revolvem e encantam por mais vezes que sejam ouvidas.

Beethoven foi uma das paixões da minha vida.

A Sétima Sinfonia quando a ouvi já em Vila Pouca como professor, ela apresentava-se como celebração poética triunfal. O meu colega Valdemar Chaves, de forte sensibilidade, trauteava comigo temas de Beethoven… os dois, chegávamos facilmente ao êxtase emocional. Ele iniciava um tema e eu dava-lhe continuidade … O meu amigo falava de Beethoven com alma e coração, dizia mesmo que era louco por ele e que de todas as sinfonias, o Allegretto da Sétima parecia ter Deus lá dentro!

Beethoven tinha um plano na sua aura de escrever. Escrevia a música que lhe saía de um coração tantas vezes dilacerado e insatisfeito. A pulsão criativa proporcionava-lhe uma ordem, um cosmos, um caminho para uma harmonia arrojada e inovadora…
Este allegretto deixa-nos guindar para a imensidão de um encantamento límpido da alma que procura insistentemente a mansidão para o recolhimento interior…

Estava um dia de chuva, cascata de música…e o allegretto deslizava na ardência solene de chegar ao fim… em Beethoven a música, tantas vezes, é a arte da melancolia astral do anjo caído que é toda a humanidade.

Este andamento apresenta-se na sua conceção numa espécie de vida tumultuosa e divina ao mesmo tempo…Este andamento é uma prece inapelável ao anjo da ressurreição…um grito de dor que se quer libertar…

E no fluir da corrente sonora, facilmente seremos invadidos pelo sentimento inexorável de uma libertação de pecados que vamos construindo ao longo das nossas vidas…

Só Beethoven podia escrever um allegretto tão espiritual, tão puro, tão balsâmico ao ponto de nos fazer cortar a respiração. Quem escreveu assim, como não havia sofrer de amores não correspondidos que o levaram quase à sua desgraça e revolta tempestuosa?

Não deixe de ouvir este allegretto para nele encontrar o conforto de uma paz tão necessária e duradoura nestes tempos perigosos e desumanos… A música é uma terapia insubstituível para determinadas doenças do nosso tempo onde a medicina não dá resposta…Ouvir Beethoven é essa terapia, a vitamina que faz milagres…Sempre que ouço Beethoven lembro o meu amigo Valdemar Chaves com o seu semblante absolutamente iluminado e feliz quando me falava de Beethoven. Valdemar Chaves é uma pessoa com o espírito e os sentimentos despertos para tudo o que o rodeia. E a música é uma constante na sua vida.

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