Domingo, 26 de Maio de 2024
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“25 de Abril sempre, porque o país está muito melhor”

O coronel Rodrigo Pizarro nasceu em Alijó em setembro de 1946. Apenas com seis dias de vida foi morar para Souto Maior, em Sabrosa, onde residiam os seus pais.

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Depois de ter feito o 1º ciclo no Liceu Camilo Castelo Branco, em Vila Real, foi estudar para o Liceu Gil Vicente, em Lisboa, onde concluiu o 2º e 3º ciclo. Em 1964, terminou o curso na Academia Militar. Depois de ter passado por Mafra, pela Escola de Sargentos do Exército em Caldas da Rainha, foi mais tarde destacado para Lamego, onde tirou o curso de operações especiais.

No dia 15 de março de 1974 foram demitidos os generais Costa Gomes e Spínola, dos mais altos cargos das Forças Armadas Portuguesas, por causa do livro “Portugal e o futuro” e por faltarem à reunião da “brigada do reumático”, como era conhecida no seio militar.

A 16 de março de 1974, ocorreu o “Levantamento das Caldas”, também conhecido como Revolta das Caldas, uma tentativa de golpe de Estado frustrada. “Após este dia foram dadas instruções ao major Otelo Saraiva de Carvalho, que estava responsável pelo planeamento operacional, para acelerar o processo”, conta Rodrigo Pizarro à VTM.

Em Lamego, após uma insubordinação dos militares, de Lisboa perguntaram: “como está Lamego?” A resposta foi: “Estamos em movimento”. Mas “ninguém se mexeu”, revela o coronel, que na altura era capitão e foi transferido para Aveiro, tal como outros colegas que foram colocados em vários pontos do país.

“Já sabíamos o que iria acontecer, só não sabíamos o dia certo”. No dia 23 de abril, “bate-me à porta o Rodrigo Sousa e Castro, com a ordem de operações 25 de Abril. Foi aí que soube exatamente o dia em que ia acontecer”.

Após ter recebido a ordem de operações, Rodrigo Pizarro, no dia 24 de abril, reuniu alguns dos milicianos, “que estavam do nosso lado”, mas não conseguiu falar com o alferes Cunha. “Falei com o responsável do paiol para nos levar as munições necessárias para municiar toda a companhia, porque no campo só havia duas mil munições”.

AS SENHAS

As duas senhas do código dos revolucionários eram “Depois do Adeus”, que iria para o ar por volta das 11h00 e “Grândola, Vila Morena” à 00h20. “Eu estava em casa de um camarada nosso. Mal saiu a primeira senha dirigi-me, em viatura civil, ao campo em Aguadas de Cima, onde estava acantonada a Companhia. “Vestido de camuflado, chego à tenda e digo “está na hora, vamos”. Formamos a Companhia, distribuí as munições e seguimos, porque tínhamos de estar às 3h00 na Figueira da Foz, onde iríamos reunir com mais três companhias, RI 10, RI 14 (Viseu), CICA e outra do Regimento de Artilharia Pesada Nº 2 da Figueira da Foz. As companhias operacionais era a minha e a de Viseu, os outros iam só com recrutas”.

O primeiro objetivo era libertar o Forte de Peniche, depois seguir para Lisboa. “Após um atraso do RI 14, devido a um incêndio no parque de viaturas, partimos sem eles. O nosso maior receio era contornar o RI 7 (Leiria) que era considerado inimigo. Correu bem e chegámos às Caldas da Rainha com as três subunidades”.

Saiu de Aveiro para ajudar na revolução

Após várias peripécias, lá chegaram a Peniche, numa quinta-feira cinzenta com chuva miudinha. “Chegámos por volta das 8h00 e como nunca tinha estado em Peniche, perguntei onde ficava o Forte. Lá me indicaram o caminho, convencido que as duas companhias que supostamente seguiam à minha frente já tinham tomado conta do assunto. Quando cheguei, vi a GNR nas ameias do Forte e estava a decorrer a feira semanal. Disse ao alferes para organizar as viaturas e apontar as duas bocas de fogo à entrada do Forte e esperar para ver o que se ia passar”, relata.

“Disse aos feirantes para saírem do recinto em cinco minutos. E saíram de forma tão rápida que se deixou de ver viva alma”.

Rodrigo Pizarro dirigiu-se ao diretor do Forte, que lhe perguntou se havia algum problema.

“Disse-lhe que queria tomar conta do Forte, ele respondeu que não tinha ordens de Lisboa. Eu afirmei que eram ordens revolucionárias. Ele hesitou e pediu-me meia hora para contactar Lisboa”.

Entretanto, chegaram outras companhias, que ficaram na praia. “Fui ter com o comandante da Força e expliquei o que se estava a passar, ele decidiu que ficavam em Peniche os do CICA e nós seguimos para Lisboa”, onde já se tinha rendido o primeiro-ministro. “Em Lisboa havia milhares de pessoas na rua, todas muitos felizes, pelo que me questionei como é que esta gente esteve 48 anos sob a ditadura”.

À VTM confessa que “se sentiu muito bem” por ter participado ativamente na Revolução dos Cravos. “Valeu a pena e digo 25 de Abril sempre, porque o país está diferente para muito melhor”, conclui o comandante que libertou o Forte de Peniche, uma das prisões mais rigorosas do Regime Fascista.

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