Quarta-feira, 29 de Abril de 2026
António Martinho
António Martinho
VISTO DO MARÃO | Ex-Governador Civil e Ex-Deputado

De chapéu na mão

Há quem considere que somos “chorinhas” quando, enquanto transmontanos e durienses, nos queixamos da sobranceria com que os vários poderes nos tratam.

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Não acompanho esse sentir. Constato, isso, sim, a razoabilidade desse sentimento de abandono ou a necessidade que sentimos de defender os nossos direitos, portugueses que nos consideramos ser de corpo inteiro. Por vezes, de forma violenta, tal como quando “populares incendiaram o edifício da Fazenda e da Contadoria de Alijó”, em 1909, ou afrontaram o poder em frente à Câmara de Lamego, em 1915, no motim, com várias mortes, que Pina de Morais descreve no seu Sangue Plebeu.

Os problemas que se têm vindo a avolumar na região demarcada do Douro suscitam esta e outras memórias. Assim, decorria o Verão de 1975, quente, como habitualmente, mas também pela temperatura política. Por razões de natureza familiar, tive de assumir algumas tarefas próprias de um lavrador do Douro que, na vindima anterior, enchera dois tonéis de vinho. Então, diferente de hoje, o vinho não se vendia em uva, na vindima; vendia-se mesmo vinho feito, que estagiava no tonel no inverno, aguardando comprador durante o ano. Se tal não acontecesse havia o escoamento para queima. Para o efeito, a Casa do Douro havia construído na região diversas destilarias. Vinho tratado com aguardente vínica, no caso, da região do Douro. Porque a vindima fora generosa, ou porque não apareceram atempadamente compradores, coube-me, ali por fins de julho, princípios de agosto, tratar do escoamento para Favaios. É verdade, a destilaria que a empresa Quanta Terra transformou num distinto enoturismo, num excelente casamento de vinho e arte, ambos de elevada qualidade. E lá fui eu, no Fiat 128, a Favaios falar com o pai do Abel. O Abel, natural de Pegarinhos, aqui ao lado, fora meu condiscípulo nos primeiros anos de estudo, lá onde era possível a filhos de pequenos lavradores estudar para além da 4ª classe. Na esperança de que esse conhecimento sortisse bons efeitos, lá fui eu, de chapéu na mão, como quem diz, porque nessa altura o não usava, falar com quem podia decidir da entrega.

Demorou uns dias, mas lá foi possível proceder ao transporte antes que envinagrasse, pois, nesse caso, seria pago ao preço da uva mijona.

Nos dias que passam, não fora o papel das cooperativas que ainda persistem, estaríamos sujeitos ao mesmo. Mantêm-se, todavia, as contingências do início do séc. XX que causaram o que acima se recorda, como lemos em Gaspar Martins Pereira e Carla Sequeira: «Numa época de liberdade de produção e comércio (1865 – 1907), a utilização de vinhos mais baratos pelos exportadores fez baixar as compras de vinhos no Douro e os respetivos preços». É sempre assim quando o liberalismo económico se impõe. E é sempre o “sangue plebeu” a correr.

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