Terça-feira, 9 de Junho de 2026

A Fragmentação e a Polarização da Sociedade

Vivemos tempos de algum empobrecimento humano e social.

Chovem nas redes sociais aquelas frases feitas de que estamos rodeados de hipócritas, mentirosos, falsos, oportunistas, vaidosos, traidores. Nada de novo debaixo do sol.

Sentimo-nos, por isso, com autoridade para cancelar e descartar. Eu sou o todo puro que só quer viver com aqueles que são confiáveis, que me caem bem, partilham as minhas ideias, os meus gostos e os meus desejos, aqueles que me dão segurança e conforto, mas também aqueles que realizam os meus interesses. Portanto, cancelo amigos, descarto a esposa ou esposo, que já não me satisfaz ou interessa, mais um divórcio, (qual é o problema?), no trabalho falo com quem quero, seleciono as pessoas que rimam comigo ou me convêm.

É lamentável esta forma de estar na vida. Uma pessoa humana madura aprende a acolher o outro na sua forma de ser e de pensar, diferente da minha possivelmente, e sabe conviver e relacionar-se com pessoas diferentes, faz um esforço por ouvir, aceitar e compreender os outros, sem pressas em descartar ninguém. Esta mesma cultura, infelizmente, está a infestar todos os âmbitos da vida social. Apesar de tantas proclamações sobre tolerância e tanta arenga sobre democracia, sobre a riqueza do pluralismo e da diversidade, sobre a mais valia da fertilidade de ideias e propostas para a sociedade caminhar no progresso e no desenvolvimento, vemos prosperar a cultura de cancelamento e a polarização: estamos a deixar de saber conviver com quem pensa diferente de nós e queremos pôr de lado quem nos obriga a questionar o nosso pensamento e as nossas certezas e seguranças, muitas vezes alicerçadas em muita preguiça intelectual e em muita ignorância. Estamos a perder a capacidade de vermos o outro lado e outras perspetivas. É um claro empobrecimento para a nossa vida humana, para a nossa inteligência e para o saudável debate social que deve existir em democracia.

Afinal, quem pensa diferente de mim não é para ouvir e perceber um pouco na sua razão, é para cancelar ou atirar para o outro lado. Afinal, a diversidade é um mal e um estorvo, abaixo o pluralismo, só há uma ideia e uma perspetiva certa, a minha, os outros não têm direito a existir e a expressar-se, os “outros” não pensam bem e estão desalinhados, é para abater e calar.

-PUB-

O que nos fez prosperar como seres humanos foi a capacidade de ouvir os outros e conciliar pensamentos diferentes, na busca de soluções para os problemas humanos e sociais.

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