Quarta-feira, 18 de Maio de 2022
Victor Pereira
Pároco. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

A Missa é para a Igreja e não para a Tradição

Entristece-me ver a Igreja enredada em pretéritas escaramuças litúrgicas e teológicas, sobre qual é a verdadeira Igreja ou a verdadeira liturgia, qual é o rito mais sagrado ou o rito mais puro.

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Entristece-me ver a Igreja enredada em pretéritas escaramuças litúrgicas e teológicas, sobre qual é a verdadeira Igreja ou a verdadeira liturgia, qual é o rito mais sagrado ou o rito mais puro. É uma falácia. Não existe a verdadeira liturgia ou a verdadeira Igreja contra a falsa Igreja, só existe uma liturgia e uma Igreja, aquela que é definida pelo Papa e pelos bispos, auscultando-se o restante clero e os leigos da Igreja. E que se fale em cismas e divisões com a maior das levezas, por causa de tradicionalismos, birras rituais e, quiçá, interesses alheios ao Evangelho, é de perguntar se não estaremos numa fase de insanidade eclesial. A resposta de Jesus é clara: para vinho novo, odres novos.

O Concílio Vaticano II promoveu uma reforma litúrgica porque entendeu que a liturgia já se celebrava de forma anacrónica e não expressava a verdadeira identidade da Igreja, que é o povo de Deus e é um admirável mistério de comunhão. Introduziu mudanças para expressarem esta conceção eclesiológica, purificada do protagonismo clerical: o sacerdote deixava de celebrar de costas e passava a celebrar de frente para o povo, porque é todo o povo, a assembleia que está a celebrar, com a presidência do padre. A liturgia não é um padre a celebrar com o povo a assistir; a liturgia assumiu as línguas vernáculas, para que as pessoas entendessem o que se rezava e tivessem uma participação mais frutuosa e consciente. As missas deixaram de ser em latim, que a esmagadora maioria do povo não entendia, parecendo que a missa era algo de mágico e esotérico; promoveu-se uma renovação da paramentação e dos livros e objetos litúrgicos, para expressarem a simplicidade, a dignidade e a beleza da liturgia, e melhor se adequarem ao ar dos tempos, a que a Igreja também não pode ficar indiferente.

Não consigo entender como é que se quer negar esta reforma e se quer persistir na celebração anterior ao Concílio. A liturgia transformou-se para muito melhor e expressa hoje, melhor do que nunca, o que é a Igreja. É verdade que andam por aí muitos abusos na celebração da Missa, que urge identificar e corrigir. Muitos cristãos queixam-se de que a Missa se tornou folclórica e ruidosa, com pouco encontro com Cristo, falta profundidade na celebração e a experiência espiritual é pobre. Mas a resposta não pode ser voltar a uma celebração, pelo qual temos muito respeito, mas que teve o seu tempo, e seria uma profunda contradição com o pensamento atual da Igreja.

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