Sexta-feira, 20 de Maio de 2022
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

A vitória do motorista

Eleições Legislativas 2022

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O governo emergente terá diversas ações a desenvolver com agilidade. Para lá da apresentação de um Orçamento de Estado – o primeiro grande sinal do sucesso do entendimento com as outras forças políticas – bem como da gestão das atuais fases da pandemia (avanço para conceitos de ‘endemia’ ou não), terá ainda de assegurar uma estrutura que emita confiança junto dos investidores, de modo a aproveitar os fundos europeus apresentados como ‘Bazuca’ mas também de modo a dar a força necessária para os agentes económicos ganharem ânimo para investirem na economia portuguesa, para reestabelecerem os padrões de conforto e de consumo sustentável e para sinalizar um papel competente no inquieto xadrez internacional.

A região, com os resultados divulgados, favoreceu António Costa (um dos vencedores da noite eleitoral), mantendo uma certa tendência histórica para votar maioritariamente na Direita somada. Notou-se ainda uma certa autonomia do voto nestas Legislativas face às tendências apuradas nas Autárquicas da região.

Os partidos menos votados foram Ergue-te, MPT e Volt, com menos de 100 votos em todo o distrito. Também a nível distrital, oito partidos tiveram menos votos que o Nulo e o Branco. E se somarmos o Nulo com o Branco, então só 4 partidos tiveram mais votos que essa Coligação. Um em cada dois eleitores absteve-se no distrito.

Face a 2019, os partidos que cresceram no favor do eleitorado do distrito foram o Chega (de 791 para quase 10 vezes mais), o IL (de 425 para mais do quádruplo) e o PS (mais de 4 pontos percentuais do que há 2 anos). Claramente, os partidos mais castigados foram o BE (que caiu 4 pontos percentuais), o CDS-PP (que caiu para quase um terço dos eleitores de 2019) e o PCP-PEV (que caiu em redor de 50%). Este tipo de movimentos conjugados mostra sobretudo que, além de um certo ‘voto útil’ à Esquerda, houve uma reconfiguração aparente das Direitas distritais, levando a que eleitores, por exemplo, do CDS-PP tenham preferido agora, no distrito, votar no Chega ou no IL.

Em síntese, o jogo só agora começou. Como escrevi em 2019, reforço a necessidade de o próximo Governo da República Portuguesa contemplar e compensar a região transmontana da descapitalização e do desinvestimento notórios, gerar incentivos que claramente limitem a sangria populacional e dar um reforço a Trás-os-Montes em número de Secretários de Estado ou até de Ministérios para cidadãos oriundos/residentes neste espaço. Um António Costa cansado vence – no distrito e no país – muito por força das energias das bases no terreno, da mobilização dos vários grupos da família socialista, pela fragmentação no PSD que não se uniu em torno de um Rui Rio que procurou tarde compensar os erros de abordagem do passado recente, mas também Costa ganha como líder de um governo que geriu a pandemia e que caiu em pandemia – e quando o autocarro vai avariado, a última coisa que os passageiros querem é mudança de turno nos motoristas.

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