Segunda-feira, 15 de Junho de 2026

As elites brasileiras não gostam de nós?

A crónica que Miguel Sousa Tavares (MST) publicou no Expresso no passado dia 30/08 merece ser lida com a devida atenção.

O tema da crónica é a entrevista que um escritor brasileiro, Sérgio Rodrigues (SR), deu à revista do Expresso, em que basicamente, se queixa de os portugueses não respeitarem os autores e a literatura brasileira.

Esta animosidade contra Portugal, por parte de algumas elites brasileiras, é confirmada numa investigação de Carlos Fino, nosso Adido Cultural em Brasília: “…o desdém dos brasileiros para com a herança portuguesa; a rejeição de tudo o que os possa, direta ou indiretamente, aparentar a Portugal; o pendor antiportuguês das elites provindas de diferentes horizontes, a exemplo dos Bolsonaros e das Dilmas Roussef:..”. Carlos Fino conclui ironicamente: “o Brasil não deve nada a ninguém, nasceu de gestação própria!”.

MST conhece bem a literatura brasileira e por isso desmonta com facilidade as ideias e os argumentos de SR e deixa-lhe um conselho final: “…e deixe-nos cá a nós com o nosso Camões, velhinho de 500 anos. É que, não sei se sabe, às vezes é mais velho quem nasce em berço mais novo.”

O tema das relações difíceis entre Brasil e Portugal não é novo, como se pode constatar pelos comentários de diplomatas que se queixam das atitudes pouco amigáveis e até desrespeitosas dos seus colegas brasileiros. O embaixador Vasco Futscher dizia: “Com o Brasil, nada é difícil – tudo é impossível!” e Franco Nogueira embaixador do tempo de Salazar ia no mesmo sentido: “Com o Brasil tudo é tão difícil, que tudo se perde”. O embaixador Marcello Mathias em carta de 1941 escrevia: “… o verdadeiro sentimento nacional brasileiro, hostil sem reservas a Portugal e às coisas portuguesas” (Marcello Duarte Mathias em “A Desoras”).

-PUB-

Pessoalmente gosto do Brasil e sinto um orgulho enorme em ouvir aquela gente toda a falar português nas metrópoles de S. Paulo ou do Rio de Janeiro. O Brasil é a minha segunda casa porque os meus avós paternos foram emigrantes nesse país no início do século XX e meu pai nasceu no Rio de Janeiro em 1917. Os meus avós sempre foram muito bem tratados nesse país tendo inclusive o meu avô sido membro da direção do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro. Por outro lado, tenho inúmeros amigos brasileiros nomeadamente meus colegas médicos da área da transplantação renal.

A propósito desta minha história familiar houve um livro de que gostei particularmente e que me marcou que foi “O Anjo Pornográfico. A Vida de Nelson Rodrigues” da autoria de Ruy Castro que me deu a conhecer esse magnífico escritor carioca e algo da vida social e política do Rio de Janeiro do tempo dos meus avós! Mas, felizmente do Brasil também vêm coisas boas e elogiosas como é o caso do livro “O Portugal Que Nos Pariu” da brasileira Ângela Dutra de Meneses que alude com indisfarçável vaidade à nossa História comum, escrevendo: “Um país pequeno, na ponta da Europa, habitado por meia dúzia de gatos-pingados, realizou a proeza de ser o dono do mundo. É de se tirar o chapéu”.

A nossa herança em terras de Santa Cruz não nos envergonha e os brasileiros devem estar muito contentes connosco já que lhes deixámos a sua pátria, o Brasil e a língua de Camões!

ARTIGOS do mesmo autor

Marques Mendes a Presidente

Miguel Torga e o Prémio Nobel (2)

Será que a história se repete?

Já Chega!

Donald Trump, Winston Churchill e a Europa

NOTÍCIAS QUE PODEM SER DO SEU INTERESSE

ARTIGOS DE OPINIÃO + LIDOS

Notícias Mais lidas