Sexta-feira, 17 de Abril de 2026
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José Filipe Monteiro
José Filipe Monteiro
Delegado Distrital de Vila Real da Ordem dos Engenheiros

As intempéries e a engenharia civil – “O facilitismo e preço da poupança”

As intempéries que afetaram recentemente o nosso País com consequências catastróficas, tanto no imediato como a longo prazo, devem-nos fazer refletir e definitivamente tomar posição firme de forma a aplicarem-se medidas para minimizar, atenuar e prevenir as próximas.

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Estes fenómenos extremos demonstraram que não estamos devidamente preparados param situações destas. Infelizmente, estes fenómenos estão-se a tornar cada vez mais frequentes e com maior intensidade e durabilidade.

Temos de estar preocupados e sobretudo devemos encontrar soluções duradouras de forma a mitigar ou mesmo solucionar este tipo de fenómeno.

Estes fenómenos provam-nos que não se pode ignorar a engenharia. A engenharia é a única que melhor está preparada para este tipo de fenómenos, caso a deixemos trabalhar.

Obviamente, a engenharia não evita os fenómenos, mas com toda a certeza pode reduzir e atenuar os efeitos, que, por vezes, são irreparáveis e catastróficos.

Como sabemos, a engenharia assume-se como uma ciência exata, evolutiva e adaptativa. Evolui, e adapta-se às novas circunstâncias para criar as melhores condições à nossa sociedade. Os fenómenos constantes que surgem e incluindo, como é óbvio, os extremos são objeto de estudo constante por parte da engenharia. Esta recolha constantemente dados com minúcia e critérios bem definidos de forma a obter informação de relevo e de extrema importância para permitir preparar, melhorar, reforçar e adaptar bases de cálculo, redefinir zonamentos climáticos, para consequentemente melhorar todos os parâmetros de dimensionamento que estruturam um projeto de engenharia.

Temos definitivamente a obrigação de exigir engenharia em toda a sua vertente em todos e qualquer tipo de infraestruturas e edifícios.

O desinvestido na engenharia que se verificou ao logo dos últimos anos acarreta graves consequências, acarreta elevados custos, podendo mesmo originar a estagnação económica e social de uma região.

Qualquer processo construtivo, independentemente da sua dimensão e valor, tem de ter um estudo completo, rigoroso e exaustivo, onde, obrigatoriamente, tem de participar todas as especialidades achadas necessárias para o projeto em causa. A engenharia tem de estar presente em toda a extensão de um projeto e não deverá apenas estar presente numa das suas fases.

A execução destes estudos tem de ser elaborada por técnicos, devidamente habilitados, com competências demonstradas para a natureza do projeto e obra a realizar. Deve ser uma exigência de todas as entidades licenciadores, de todos os promotores e até de todas pessoas particulares. Esta exigência deve-se tornar um hábito a ter de forma a obter-se confiança, segurança, responsabilidade e também uma maior certeza no futuro.

Aliado aos últimos fenómenos meteorológicos extremos que se verificaram temos uma crise habitacional sem precedentes.

A crise habitacional que se verifica no nosso País, como em outros, tem pressionado muito promotores imobiliários, autarquias locais e o poder central. O desejo e a vontade de resolução rápida por parte destes intervenientes, bem como das próprias famílias necessitadas de uma habitação, faz com que estudos de viabilidade, estudos complementares de engenharia que deveriam ser obrigatórios e minuciosos, sejam “atropelados” e muitas vezes ignorados. A agravar esta problemática associa-se a falta de obrigatoriedade de muitos projetos de especialidade num processo de licenciamento, agravados para obras de menor dimensão e requerentes particulares.

Esta situação tem necessariamente que mudar. Independentemente da natureza, da época e do valor da obra as regras têm de ser transversais e iguais em todos os contextos. Não se pode facilitar.

Os fenómenos metereólogos extremos põem tudo a prova, demonstram que nada nem ninguém está devidamente preparado.

Está na hora de agir.

Para nos melhor prepararmos temos também que optar por uma abordagem preventiva. Este tipo de abordagem pode e deve complementar as atitudes de solução.

Temos e devemos de encarar a engenharia preventiva como um aliado imprescindível para a tomada de decisão. A engenharia preventiva é uma abordagem proativa que antecipa falhas e problemas em sistemas, máquinas, projetos e infraestruturas. Utiliza técnicas avançadas, promove a investigação, executa protótipos virtuais testa e inspeciona com regularidade. O seu objetivo é garantir segurança e eficiência, dar confiança e longevidade das operações e também reduzir os custos de manutenção corretiva.

Esta engenharia preventiva permite transformar o caos de falhas imprevistas em operações mais previsíveis e, consequentemente, mais controladas e seguras.

Conseguimos com prevenção otimizar os projetos de engenharia, aumentando a vida útil dos ativos dando maior segurança, maior eficiência produtiva e, consequentemente, menores custos emergenciais.

As consequências destes fenómenos têm de ser constantemente lembradas, pois só assim agimos. Infelizmente as consequências catastróficas destes fenómenos extremos arruínam vidas, arruínam sociedades, arruínam sonhos e arruínam regiões. Catástrofes destas não se podem evitar, infelizmente, mas podem-se e devem-se prevenir.

Não podemos mais ignorar estes fenómenos extremos. Não se pode mais ignorar a engenharia.

Cabe-nos também a nós fazer a diferença. E mesmo que não nos obriguem, devemos nós, enquanto cidadãos, zelar pelos nossos interesses.

Não podemos facilitar. O barato por vezes sai muito caro.

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