Domingo, 29 de Maio de 2022
António Martinho
VISTO DO MARÃO Ex-Governador Civil, Ex-Deputado, Presidente da Assembleia da Freguesia de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

As pontes e os muros

Já se tornou habitual. Quando se perspetiva algo de novo, logo saltam motivos para dar relevo aos muros e menorizar o papel das pontes.

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O muro separa, cria obstáculo, dificulta a passagem. A ponte une, cria laços, liga duas margens. Retenho na memória um passeio – ainda se não falava em caminhadas -, ali por 1962, para ver a ponte da Arrábida, concebida pelo Engenheiro Edgar Cardoso, em construção. E nunca esqueci a imagem de um arco inacabado que, dias depois, havia de se tornar mais um meio de ligação, de passagem, de união entre as margens do rio Douro, muito próximo do local em que este se lança nos braços do Atlântico depois de, apressado, serpentear por entre serras para chegar ao mar quando aos irmãos Tejo e Guadiana que, madrugadores, haviam saído mais cedo. 

Os muros crescem, muitas vezes, inexplicavelmente. Decerto que o leitor, atento ao que se passa no país e no mundo, já recordou a polémica de há quatro anos sobre um muro que se opusesse à entrada de migrantes da América Central para os Estados Unidos da América, malquistos no governo de Trump. O muro seria um obstáculo intransponível para essas pessoas esfomeadas, cansadas e exaustas pela grande caminhada em busca do El dorado. Também no Berlim do pós-II Grande Guerra se levantou um muro. O betão passou a separar, por dezenas de anos, famílias e amigos.

Por cá, quando se pensa em construir uma ponte em Lisboa, surge um alarido no Porto e zona circundante, mas quando a ponte se destina ao Porto, algo de semelhante se passa pelos lados da capital. Caso para perguntar se, neste rincão, só Lisboa e Porto precisam de pontes? Se a ponte é necessária, que se construa, tal como a de Lisboa, aquando do novo aeroporto. Atenção! Se nos opusermos, falar-nos-ão de externalidades. Por isso, parafraseando Luther King, “construamos pontes, não paredes”. Em coerência, para uma boa transição climática e digital, mas sobretudo para uma maior coesão territorial, as pontes devem erguer-se onde são necessárias. De materiais diversos.  Ligando as margens de um qualquer rio, derrubando muros que se deixaram levantar. Pode ser sobre o rio Côa para voltar a levar o comboio até Barca d´Alva, ligando o Porto a Salamanca. Pode ser sobre os rios Torto e Varosa, ligando os municípios da margem esquerda da região do Douro ao IP3 (A24), ou, criando uma nova ligação de Bragança ao novel comboio de alta velocidade, na vizinha Sanábria. O importante são as pontes, não os muros

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