Sábado, 4 de Dezembro de 2021
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

As raças

Já há muito tempo que reflito e debato sobre o despovoamento, a desumanização e a desertificação territorial.

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Também já há muito tempo que, num desses primeiros debates, alguém me perguntava se estes fenómenos só têm aspetos negativos. E nesse debate, há muito tempo, respondi espontaneamente algo que depois tenho reiterado – o isolamento conduz à definição das raças.

Na altura, como agora, estava a pensar nas raças caninas. Castro Laboreiro, Fila de São Miguel, Serra da Estrela, de Gado Transmontano, Serra de Aires, Rafeiro Alentejano, etc – todas estas raças estão profundamente definidas pelo desenvolvimento genético apurado num contexto ambiental – mas também sócio-cultural – próprio. Em comum – esses contextos ambientais e sócio-culturais tinham isolamento geográfico (visto como uma dificuldade acrescida das comunidades humanas residentes estabeleceram fluxos de contactos com comunidades de não-residentes). Em consequência, o padrão genético dos cães ia ficando concentrado, geração após geração, em determinados caracteres, vistos como os mais adequados à sobrevivência dos indivíduos caninos mas também como os mais apropriados para o interesse dos criadores/comunidades humanas endógenas.
Bem sei que estão a pensar que tal analogia zootécnica se poderia aplicar antropologicamente. Portanto, comunidades humanas isoladas/fechadas, quase endogâmicas, correm o risco maior de definição de caracteres específicos. Esse exercício seria demasiado óbvio e em nada rigoroso para os meus amigos que tenho em melhor conta.

No entanto, o isolamento hoje já não se mede como antes. Antes, havia quem nascesse e morresse na Brandoa, na Amadora, e nunca tenha chegado a Sete Rios. Ou quem tenha nascido e morrido em Gache e nunca tenha visto o Terreiro do Paço. Ou então – caso verídico, este – quem tenha nascido no sopé do vulcão adormecido do Faial e nunca tenha visto o mar. Mas hoje o isolamento vive-se mais na limitação dos grupos com que se contacta – alguém que só ouve pessoas da sua classe social, da sua confissão religiosa, da simpatia clubística, do seu partido político é alguém muito isolado. Alguém que só fala para pessoas da sua classe social, da sua confissão religiosa, da simpatia clubística, do seu partido político é alguém muito isolado. Alguém que só debate com pessoas da sua classe social, da sua confissão religiosa, da simpatia clubística, do seu partido político é alguém muito isolado. Alguém que só dá razão a pessoas da sua classe social, da sua confissão religiosa, da simpatia clubística, do seu partido político é alguém muito isolado. Finalmente, alguém que não partilha visões com pessoas de outra classe social, de outra confissão religiosa, de outra simpatia clubística, de outra universidade, de outro partido político, de outra formação académica é definitivamente alguém muito isolado.

Isso faz dessas pessoas uma raça? Não, mas faz deles os novos racistas.

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