Quarta-feira, 18 de Maio de 2022
Victor Pereira
Pároco. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Como somos tão solidários!

Já existiam vários conflitos ativos, onde populações estão a ser forçadas a fugir ou são dizimadas com a mesma barbaridade que está a acontecer na Ucrânia, a viver em condições degradantes, no maior dos infernos, sem roupa e alimentação, com muitas crianças e jovens, mas não se vê um direto dessas terras esquecidas, nem suscitam ondas de solidariedade com a mesma pujança da resposta à guerra na Ucrânia.

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Desfazemo-nos agora em mediáticas ondas de solidariedade, muito emotivas, para com o povo ucraniano e fizemos emergir uma desenvoltura surpreendente para arranjar refúgio e condições de integração para todos, quando, não vai há muito tempo, se bem se lembram, pouco ou nada fizemos para receber os refugiados que vinham de África, cometendo a loucura de atravessar o mediterrâneo num bote, e quantos não se afogaram e serviram de alimento aos tubarões! E quantos corpos não deram à costa, para nossa imorredoira vergonha! Viram os europeus a agilizarem céleres corredores humanitários ou a lançarem uma frota ao mar para ir em socorro destes desventurados refugiados que fugiam da miséria, da barbárie e da guerra como fogem os ucranianos? Com a agravante de fugirem de conflitos que os europeus geraram ou alimentam.

Bem teve o Papa Francisco de se deslocar a Lesbos e apelar à gélida indiferença europeia, afirmando que o «O Mediterrâneo está a tornar-se um cemitério frio sem lápides», condenando a falta de compaixão europeia, que pouco ou nada fazia, e que os recebia à paulada e os recambiava para a morte, ou levantava muros ou gigantescas armações de arame farpado para os conter, os amontoava em campos de migração, oferecendo-lhes uma pobre tenda. O que se ouvia então? «Não podemos receber toda a gente», «não temos condições», «muitos são delinquentes». Enfim, desculpas para não ficarmos mal na fotografia e parecermos gente civilizada, mas a vida encarregou-se de fazer justiça e de desmascarar a nossa hipocrisia, incoerência e injustiça, e como nós europeus também só sabemos ver muito para o nosso lado e temos muitas falhas para lá dos belos discursos que proferimos. Num ápice, todas aquelas condições aparecem para os ucranianos, não faltando agora quem não queira aparecer bem junto de ucranianos, proclamando os belos princípios da solidariedade e do humanismo. O que está a ser feito aos ucranianos está bem feito. Não dá é para compreender a diferença de tratamento e solidariedade que tivemos com outros refugiados, que foram mal recebidos.

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