Constantino Pinto, natural de Mateus, seguiu desde jovem a música da terra, tocando habilmente a sua trompa durante cinco anos. Cedo manifestou vocação para a enfermagem e, a convite do Dr. Otílio, foi trabalhar para a clínica desse conceituado cirurgião… Um dia, a senhora Evangelina – a viver na Rua da Moura – trazendo um molho de lenha da mata do conde, caiu e partiu um braço, e logo Constantino se apressou a curá-la e a restabelecê-la numa rápida e eficaz recuperação…
É chamado a cumprir o serviço militar em Macau e aí, matricula-se em Canto no Conservatório de Música. A sua inclinação e gosto pelo canto revelam-no como um cantor lírico de mérito. Depois de cinco anos em Macau, regressa a Lisboa e num encontro fortuito com o grande cantor Tomás Alcaide, pede-lhe algumas aulas particulares… Ao fim de poucos meses, o grande mestre confessa-lhe que já nada tem para lhe ensinar…
O célebre lírico apresenta-o em vários palcos de ópera e opereta, onde Constantino, nas suas exibições, arrebata aplausos e encores de um público culto e exigente, como era habitual na época. As árias e zarzuelas mais famosas e populares do repertório italiano foram por ele interpretadas com sucesso.
A exemplo da sua família – o pai, Joaquim do Pinto, o irmão Fernando e os sobrinhos, quase todos músicos em Mateus –, Constantino honrou o nome dos seus ilustres antepassados. Para ele, a música era religião, convertendo-se em ato de fé e oração sempre que cantava…
Um dia, na antiga Pastelaria Rosas, onde costumava ficar quando vinha de férias, revelou-me: “podemos conversar com rosas, podemos ouvir o chilrear dos ninhos, nas manhãs frescas e mimosas, nos banhamos de carinhos…”
Prosseguiu: “ó música, canta nas águas e nas fontes, desbrava nos homens sentimentos, toca na humanidade os corações, abre o murmúrio das fontes, percorre o mundo com as tuas emoções…” A mulher, ao lado, deixava-se baloiçar nas palavras sempre musicadas do marido, as lágrimas, essas, pertenciam-lhe por direito.
Só um bom músico pode sentir o valor e a essência da poesia… só um bom músico sente as mais fortes emoções e chega ao coração dos outros.
Mateus deve lembrar este ilustre cidadão – artista solidário e altruísta – como alguém que, sempre que falava, falava de Mateus e da alma das suas gentes.
Desde muito jovem, ouvia falar dele. E quando dele falavam, falavam com um brilho nos olhos, e pausas carregadas de significado.
Hoje, ao lembrá-lo, é a memória que se acende. É como se o coração ganhasse asas, porque há pessoas que se tornam música quando dela se fala.




