Sábado, 30 de Maio de 2026
Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Constantino Pinto: um tenor, poeta, que honra Vila Real

Há nomes que não nos devem escapar da memória. Há nomes que, por mais tempo que passe, devem ser honrados pelo contributo que deram na glorificação da arte musical.

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Constantino Pinto, natural de Mateus, seguiu desde jovem a música da terra, tocando habilmente a sua trompa durante cinco anos. Cedo manifestou vocação para a enfermagem e, a convite do Dr. Otílio, foi trabalhar para a clínica desse conceituado cirurgião… Um dia, a senhora Evangelina – a viver na Rua da Moura – trazendo um molho de lenha da mata do conde, caiu e partiu um braço, e logo Constantino se apressou a curá-la e a restabelecê-la numa rápida e eficaz recuperação…

É chamado a cumprir o serviço militar em Macau e aí, matricula-se em Canto no Conservatório de Música. A sua inclinação e gosto pelo canto revelam-no como um cantor lírico de mérito. Depois de cinco anos em Macau, regressa a Lisboa e num encontro fortuito com o grande cantor Tomás Alcaide, pede-lhe algumas aulas particulares… Ao fim de poucos meses, o grande mestre confessa-lhe que já nada tem para lhe ensinar…

O célebre lírico apresenta-o em vários palcos de ópera e opereta, onde Constantino, nas suas exibições, arrebata aplausos e encores de um público culto e exigente, como era habitual na época. As árias e zarzuelas mais famosas e populares do repertório italiano foram por ele interpretadas com sucesso.

A exemplo da sua família – o pai, Joaquim do Pinto, o irmão Fernando e os sobrinhos, quase todos músicos em Mateus –, Constantino honrou o nome dos seus ilustres antepassados. Para ele, a música era religião, convertendo-se em ato de fé e oração sempre que cantava…

Um dia, na antiga Pastelaria Rosas, onde costumava ficar quando vinha de férias, revelou-me: “podemos conversar com rosas, podemos ouvir o chilrear dos ninhos, nas manhãs frescas e mimosas, nos banhamos de carinhos…”

Prosseguiu: “ó música, canta nas águas e nas fontes, desbrava nos homens sentimentos, toca na humanidade os corações, abre o murmúrio das fontes, percorre o mundo com as tuas emoções…” A mulher, ao lado, deixava-se baloiçar nas palavras sempre musicadas do marido, as lágrimas, essas, pertenciam-lhe por direito.

Só um bom músico pode sentir o valor e a essência da poesia… só um bom músico sente as mais fortes emoções e chega ao coração dos outros.

Mateus deve lembrar este ilustre cidadão – artista solidário e altruísta – como alguém que, sempre que falava, falava de Mateus e da alma das suas gentes.
Desde muito jovem, ouvia falar dele. E quando dele falavam, falavam com um brilho nos olhos, e pausas carregadas de significado.

Hoje, ao lembrá-lo, é a memória que se acende. É como se o coração ganhasse asas, porque há pessoas que se tornam música quando dela se fala.

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