Terça-feira, 10 de Dezembro de 2024
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Mário Frota
Mário Frota
Presidente da Associação Portuguesa de Direito do Consumo. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

De tostão em tostão se rouba um milhão…

“Tenho um plano de comunicações eletrónicas, da operadora X, no valor de 79,99€. Nele se incluem os telemóveis da mulher e filhas.
Surpreendi-me com a fatura de dezembro: 99,99€, excedendo qualquer previsão.

Conferidos os consumos, havia sobrefaturação. Reclamei. E a colaboradora X, solícita, apreciou a reclamação e efetuou o estorno.

Fui conferir, depois, a de nonembro: excedia também o valor contratado. Como não reclamei, terá a operadora considerado livre o caminho para me ir ao bolso.

Pergunto: perante uma tal situação poderei terminar o contrato com justa causa?”

A fatura tem de ser detalhada.

Quanto a pagamentos adicionais, o artigo 9.º A da Lei de Defesa do Consumidor diz:
“1 – Antes de o consumidor ficar vinculado pelo contrato ou oferta, o fornecedor de bens ou prestador de serviços tem de obter o acordo expresso do consumidor para qualquer pagamento adicional que acresça à contraprestação acordada relativamente à obrigação contratual principal do fornecedor de bens ou prestador de serviços. 

2 – A obrigação de pagamentos adicionais depende da sua comunicação clara e compreensível ao consumidor, sendo inválida a aceitação pelo consumidor quando não lhe tiver sido dada a possibilidade de optar pela inclusão ou não desses pagamentos adicionais. 

3 – Quando, em lugar do acordo explícito do consumidor, a obrigação de pagamento adicional resultar de opções estabelecidas por defeito que tivessem de ser recusadas para evitar o pagamento adicional, o consumidor tem direito à restituição do referido pagamento. 

4 – Incumbe ao fornecedor de bens ou prestador de serviços provar o cumprimento do dever de comunicação estabelecido no n.º 2. 

5 – O disposto no presente artigo aplica-se à compra e venda, à prestação de serviços, aos contratos de fornecimento de serviços públicos essenciais de água, gás, electricidade, comunicações eletrónicas e aquecimento urbano e aos contratos sobre conteúdos digitais.”

Se fosse no Brasil, a operadora teria de devolver em dobro o montante indevido. Diz o CDC

“Art. 42 – Parágrafo único. O consumidor cobrado em quantia indevida tem direito à repetição do indébito, por valor igual ao dobro do que pagou em excesso, acrescido de correção monetária e juros legais, salvo hipótese de engano justificável.”

Quem cobra acima do devido comete crime de especulação (Lei Penal do Consumo: art.º 35) – pena de prisão (6 meses a 3 anos) e multa (não inferior a 100 dias).

Denúncia a fazer ao Ministério Público.

O incumprimento do contrato dá azo a que se lhe ponha termo por justa causa.

Pode haver, pois, lugar à extinção do contrato por iniciativa do consumidor. E ao pagamento de indemnização por danos materiais e ou morais pela operadora relapsa e contumaz, se o consumidor a pedir.

O que leva a que devamos estar de olhos bem abertos perante tais eventualidades. 

Como dizem os franceses, “o vendedor pode ser cego, o comprador tem de ter mil olhos”!

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