Pessoalmente tenho a agradecer-lhe nunca ter vivido um só dia em ditadura e poder escrever livre e publicamente estas palavras, sem outra censura que não seja a da minha consciência. E tenho a agradecer-lhe ser uma referência e uma inspiração para o meu gosto pela política. O problema de ter referências como Mário Soares é poder ficar desiludido com a mediocridade de alguns protagonistas políticos da atualidade.
E que ninguém leia nas minhas palavras uma crítica generalizada à classe. Agora, como antes, há políticos e políticos. Há aqueles que escrevem a História e aqueles que rapidamente “passam à história” ou deviam passar, sem deixar marca. Uma realidade que sentimos quando olhamos para os grandes líderes europeus e mundiais, mas que podemos extrapolar até à política local. Aos políticos, àqueles que aspiram liderar-nos, deve exigir-se muito, pode exigir-se tudo. E essa exigência não se limita ao exercício do poder. A democracia, que uma grande parte do país agradeceu a Mário Soares, implica também o exercício da oposição. Aliás o direito à oposição democrática está entre as grandes conquistas de Abril e deve ser tão acarinhado, quanto é desejado o exercício do poder. Chegados aqui, olhemos para a realidade de Vila Real.
A alguns meses das eleições autárquicas, o que nos diz a oposição, nomeadamente o grande partido da oposição que é o PSD e que governou os destinos do concelho durante 37 anos? Será suficiente uma crónica aqui ou ali, repetindo uma cassete estafada e descolada da realidade? Bastará um discurso tipo “Miss Mundo”, repetindo banalidades e boas intenções, tentando escrever o que se acha que o eleitorado quer ler? Onde estão as propostas, os exemplos de pensamento estratégico, as soluções concretas para problemas concretos? Mais, onde estão as demonstrações, nomeadamente daqueles que ocupam cargos para os quais foram eleitos, da importância da sua ação para a vida daqueles que os elegeram?
É que tudo isso faz parte do binómio, equilibradamente importante, poder/oposição. Ser oposição não isenta quem o exerce de contribuir ativamente para o bem comum. Quando o líder da oposição local falta à Assembleia Municipal para a qual foi eleito e em que se discute a fiscalidade do Município, quando não contribui nem propõe absolutamente nada, não deve depois vir para um jornal criticar, dizendo aquilo que deveria ter dito em fórum próprio. Não parece sério. Claro que assim é mais fácil, não se fica sujeito a contraditório, não se é confrontado com o erro das nossas afirmações. E volto à minha ideia: àqueles que aspiram liderar-nos, deve exigir-se muito, pode exigir-se tudo.
Essa exigência pode ser feita pela oposição a quem detém circunstancialmente o poder, mas deveria ser feita, em primeiro lugar, a si própria. A bem da qualidade da democracia.






