Domingo, 31 de Maio de 2026
Rodrigo Sá
Rodrigo Sá
Engenheiro

Proteger a democracia

O Instituto Nacional de Estatística reviu novamente o valor do défice de 2016, em baixa. Como se sabe, ditam os critérios de convergência da União Europeia que este deve ser, anualmente, inferior a 3% do Produto Interno Bruto.

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Porque Portugal se encontrava sob escrutínio das instituições europeias, num procedimento por défices excessivos, foi-nos imposto um valor de 2,5, em 2016. E o valor agora apurado pelo INE é de 2%, o menor da democracia portuguesa e confortavelmente abaixo de todas as metas. Até instituições economicamente mais liberais e altamente céticas em relação à possibilidade de isto ser conseguido, como o Conselho de Finanças Públicas de Teodora Cardoso, acabou por se render às evidências. Num relatório divulgado esta semana, esta instituição desmente tudo o que de negativo tem vindo a ser afirmado pela oposição sobre as contas públicas.  Mas o défice não é o único indicador nacional que apresenta bons resultados. Ao nível das exportações, do investimento, do desemprego, da construção e até do altamente polémico e dificilmente definível saldo estrutural, tudo parece apontar para a recuperação económica do nosso país. 

Uma das poucas coisas que não mudam, infelizmente, é o discurso do PSD. Há dias, numa entrevista à SIC, Pedro Passos Coelho foi confrontado com as suas próprias declarações de há um ano atrás, em que afirmava impossível a recuperação económica de Portugal através das políticas definidas pelo atual governo. E quem o confrontava não era nenhum perigoso socialista ou apoiante indefetível da geringonça. Quem lhe dava a possibilidade de assumir o seu engano era o jornalista José Gomes Ferreira, um reiterado fã da austeridade e do próprio Pedro Passos Coelho. Com evidente desconforto, o antigo primeiro-ministro manteve-se teimosamente indiferente à realidade. Mais adiante, nessa entrevista, a questão era se um mau resultado nas eleições autárquicas levaria à sua demissão de líder do PSD. Mais uma vez, no seu melhor estilo prepotente, descartou completamente a possibilidade. Pela parte que me toca, nada a opor. Como é público e sabido, não faço parte do eleitorado de Pedro Passos Coelho. Penso, aliás, que a sua manutenção à frente do PSD e a constante lembrança de qual foi a sua receita para Portugal enquanto governou, vai servindo de elemento agregador dos partidos que suportam o governo. Mas confesso que, olhando para a realidade política da Europa e do Mundo, percebendo que a falência dos partidos políticos de centro tem aberto espaço ao surgimento de movimentos populistas e extremistas, considero que um partido com a responsabilidade do PSD não pode continuar entregue a esta gente. Portugal começa a ser dos poucos países ocidentais em que o extremismo político se mantém em níveis marginais, mas isso pode não durar para sempre. O PSD tem que voltar a encontrar-se com o seu eleitorado e contribuir ativamente para a manutenção do modelo social, económico e político da jovem democracia portuguesa. Esta rota de colisão contra o muro, cantando alegremente as virtudes de um modelo de austeridade que os Portugueses rejeitam em cada vez maior número, não é fazer oposição. É suicídio político e eventual homicídio negligente da nossa democracia.
 

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