Segunda-feira, 20 de Abril de 2026

Esquerda caviar

Em Portugal, há poucas coisas que nos dias que correm são tão mal vistas quanto ser de esquerda.

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Este efeito de descrédito refletiu-se em Bloco de Esquerda e PCP em momento imediatamente ulterior ao término da geringonça, incluindo agora também o Partido Socialista, parceiro do entendimento à época.

O partido do largo do rato é hoje alvo de um profundo castigo eleitoral, não se devendo a penalização somente ao desgaste de quem governa, mas sobretudo à desilusão causada num eleitorado que, outrora fiel, hoje se sente traído.

O aparelho socialista tem vindo a ser tão mal gerido, que o partido atingiu o seu pico de desprestígio, acabando marginalizado e fragilizado, sujeito aos resultados que Livre e IL possam vir a ter, apesar de ao momento ainda se encontrarem eleitoralmente bem distantes.

De forma mais que justificada, as pessoas vêm-se esquecendo que ser de esquerda é acreditar na habitação como um direito ao invés de um ativo, e defender políticas publicas que promovam o acesso a um teto sem a sujeição à especulação imobiliária.

É igualmente crer que o Serviço Nacional de Saúde é uma das bandeiras da nossa democracia, devendo o respetivo acesso aos cuidados de saúde ser livre e independente da posição financeira do utente. Mostrando-se semelhantemente importante assegurar e incrementar as condições dos profissionais que dedicam a vida a tratar o próximo.

Na mesma senda, é promover a educação com a defesa do ensino superior e a valorização da carreira dos nossos docentes, que são também um pilar da nossa sociedade.

Com referência ao trabalho, é lutar por salários e horários mais justos, contra o despedimento abusivo, contra a precariedade e no apoio aos sindicatos e à negociação coletiva.

Apelar à redistribuição da riqueza por intermédio de impostos progressivos, proteger as minorias e as comunidades marginalizadas, independentemente de raça, género, religião e orientação sexual, tentando a obtenção de uma sociedade igualitária e justa, é ser-se de esquerda.

Contundo, o que nos tem sido apresentado, particularmente pelo Partido Socialista, é uma versão elitista, descolada da realidade do povo, pautada por carreirismo político, nepotismo e corrupção, que muito bem se apelida de “esquerda caviar” — aquela que brinda com Barcas Velhas, ostenta relógios Vacheron Constantin, e fala em nome do povo sem com ele se cruzar no quotidiano.

Como pode alguém que nunca soube o que é viver com o salário mínimo compreender o peso de uma renda? Como pode alguém que exibe vinhos de mil euros entender o drama de quem, em 30 dias de trabalho, não aufere sequer essa quantia?

Perante isto, é mais que razoável e percetível que o povo opte por outras soluções e não deposite confiança nesta esquerda caviar que emana hipocrisia e trocou a luta social por gabinetes dourados e o compromisso com os cidadãos por favores a elites.

Ser-se de esquerda é, essencialmente, ser do povo, lutar pelo povo e continuar a ser povo, transmitindo empatia, ausência de preconceitos, tolerância e justiça. Características que, infelizmente, se mostram completamente antagónicas daquelas que temos observado nos representantes de tal espectro político.

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