Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Existir vai ser difícil

Hoje, vivemos numa sociedade perigosamente individualista e pagamos o preço do individualismo com uma insegurança crescente.

O individualismo está, desde o nascimento até à morte, submetido a uma inquietação constante. A partir do momento em que nos dizem que somos um indivíduo e que temos de nos fazer a nós próprios, dizem-nos também que vai ser difícil existir. A liberdade é um bem que poucos sabem usar.

Antigamente a responsabilidade pesava sobre cada indivíduo em função do seu estatuto de nascimento; hoje, sobre cada um pesa uma responsabilidade ilimitada.

É verdade que somos hoje obrigados a desenvolver-nos sob o julgamento dos outros: o homem moderno está submetido, durante toda a sua vida ao tribunal permanente constituído pelos outros. O problema é que este tribunal é flutuante, muda a cada momento, não acreditamos nele. Para os que nos estão próximos, estamos continuamente a ser medidos, julgados e avaliados, e acabamos por ter finalmente a noção do nosso próprio valor como algo de permanentemente flutuante, às vezes em alta, às vezes em baixa, como nas cotações da bolsa. Isto reforça mais o peso da responsabilidade individual.

Desde a Renascença, o indivíduo tornou-se o fundamento dos valores, antes, esses valores estavam ligados à crença ou à autoridade de um terceiro.

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O individualismo é naturalmente uma criação histórica. Existe apenas no mundo ocidental…
Quais são as suas contrapartidas? Qual o preço a pagar?

De facto, o homem das sociedades tradicionais não tinha a liberdade de que hoje gozamos, mas beneficiava de um determinado número de solidariedades que já não existem. Ou seja: se não era um homem livre, era um homem com laços, era alguém protegido.

Que mundo este tão perigoso! Todos os dias somos confrontados com a responsabilidade mediática sempre que olhamos para a televisão, ouvimos a rádio ou lemos os jornais….Somos informados em direto de tudo o que se passa no mundo…não nos deixam respirar. Os media repetem que cada um de nós é responsável pelas desgraças do mundo e tem obrigação de agir, mas age mal porque fecha as portas da luz e da esperança.

Hoje há uma perceção pessimista do universo que acaba por se tornar insuportável. Há uma apresentação diária de horrores, massacres, catástrofes, que pesam muito na consciência inquieta de cada pessoa. Há entorpecimento das nossas sociedades que combina com uma consciência da nossa própria impotência porque a cultura do individualismo impede que se pense em conjunto impedindo que os problemas das sociedades encontrem uma plataforma de entendimento e solução.

Que mundo este em que cada um se fascina pelo seu próprio umbigo, ignorando as fraquezas de toda a ordem do nosso vizinho do lado e que tantas vezes nem sequer sabemos o seu nome.

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