Segunda-feira, 29 de Novembro de 2021
Barroso da Fonte
Escritor e Jornalista. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Joaquim de Carvalho o ermitão de Bobal e do Bilhó

Completaria 90 anos de vida, em 31 de janeiro.

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O Dr. Caseiro Marques dedicou duas colunas no Notícias de Vila Real à morte de Joaquim de Carvalho, em 28 de outubro. De táxi, a pé, de boleia, lá vinha ele do lugar do Bobal, freguesia de Bilhó, do concelho de Mondim de Basto, sempre que algo de importante decorria em Vila Real. Mas se algo acontecesse em: Guimarães, Braga, Porto descia por Mondim, de onde partia e chegava o Expresso, para o resto do país. À hora em que a cidade acordava, já Joaquim de Carvalho lá estava presente nos lugares pré-anunciados para engrossar os debates, as palestras ou sessões de trabalho de interesse cultural, social ou desportivo.

Noite cerrada, com chuva, neve, gelo, ou vento agreste; sem medo aos lobos, aos ladrões ou às bruxas, à hora do trabalho, Joaquim de Carvalho lá está no lote dos primeiros.
Umas vezes carregando livros, recortes de jornais, ou encomendas para amigos influentes das cidades onde pretende ajuntar-se.

Foi um espontâneo nato, em quase todos os eventos do ano, sempre com o intuito de clamar justiça para o seu lugar, freguesia ou associação. Umas vezes convidado, outras com entradas livres, abertas ao público, era sempre das primeiras presenças a entregar artigos seus, nos jornais onde relatava os acontecimentos. Falava pouco, mas ouvia muito. E sempre pretendia fazer-se ouvir sobre causas públicas, sobretudo quando políticos que pudessem ser úteis aos seus domínios de que era defensor.

Conheci esta figura típica desde os anos cinquenta. Cedo reconheci nele uma disponibilidade total para fazer parte de iniciativas que, de algum modo, pudessem contribuir para bem da sua Terra e das suas gentes. Foi assim, com esse seu humilde modo de ser, de participar e de exigir justiça para as preocupações comuns que reconheci nele o Homem raro, o Cidadão integro, o Transmontano puro, o Amigo leal e o agente irrepreensível para cada gesto comunitário.

Deu de si, tanto a outros que soube aprender com todos, colocando-se inteiramente ao lado de cada um que conhecia nas boas causas. De uma humildade impressionante e de uma abnegação irrepreensível, Joaquim de Carvalho atravessou os seus quase 90 anos, num palco existencial em que foi uma espécie de anjo da guarda, onde semeou bondade, respeito e amor cristão. Foi jornalista para exaltar a sociedade, exigindo direitos; foi arauto para denunciar deveres e clamar justiça; foi voluntário para causas humanitárias; dirigente popular e guia humanista do redil cívico, quase providencial que nos deixou, tão silenciosamente naquele dia de chuva de 30 de outubro “que ajudou o seu caráter e revigorava para estar sempre em luta permanente, em favor dos seus conterrâneos”, como exarou Caseiro Marques. Este transmontano, do Bobal, foi das almas mais generosas, leais e devotadas à cultura popular.

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