Sexta-feira, 1 de Maio de 2026

Medicina e Arte

Convidado para fazer uma conferência sobre “Medicina e Arte” nas 18as Jornadas de Urologia em Medicina Familiar em Lisboa, no âmbito de uma homenagem que os organizadores entenderam fazer-me, ocorreu-me partilhar com os leitores deste jornal algumas reflexões sobre o tema. 

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O relacionamento da Medicina com as artes mais tradicionais é antigo e histórico. A associação com as artes figurativas foi e é de longe a mais comum. Ao longo dos séculos o desenho e a pintura e episodicamente a escultura foram de grande importância no ensino e divulgação do corpo humano e dos atos médicos. Atualmente a fotografia, surgida no século XIX e a videografia mais recente, cumprem essa função, com vantagens evidentes na instantaneidade e na fidelidade ao acontecimento, perdendo, contudo, claramente no aspeto artístico.

Sem dúvida, que durante todo o longuíssimo tempo que decorreu até ao advento da fotografia, foi a pintura a arte que enriqueceu a iconografia médica inspirando-se em temas de estudo, de representação da doença e do sofrimento e na divulgação de atos médicos e cirúrgicos, atraindo pintores das mais diversas épocas e correntes. Um dos mais notáveis exemplos do que acabamos de dizer é-nos dado pelos desenhos de anatomia de Leonardo da Vinci (1452-1519) o famoso artista renascentista autor de obras imortais como “Mona Lisa”, “A Última Ceia”, etc.). 

Leonardo revolucionou a técnica do desenho do corpo pela beleza da execução, o uso da perspetiva e do sombreado e o sentido da proporção. A sua arte e o seu saber proporcionaram-nos valiosas representações da anatomia que foram uma preciosíssima fonte de estudo para a compreensão do corpo humano e para o progresso da medicina. Leonardo estudou anatomia porque necessitava de a conhecer bem para a realização das suas obras de pintura e de escultura. 

É indiscutível que a associação das belas artes com a medicina foi muito importante para o seu conhecimento e progresso. Como salientou Amélia Ricon-Ferraz “a Arte é uma importante e insubstituível fonte indireta do saber médico-histórico em termos científicos, tecnológicos e assistenciais. No passado, na ausência da tecnologia atual disponível como fonte de cultura, a arte reproduzia fielmente a realidade que se impunha conhecer”. 

Grandes Mestres da pintura se dedicaram à representação artística de temas relacionados com a medicina. Já referimos o caso do artista renascentista Leonardo da Vinci, mas houve muitos outros que trataram de temas médicos, como por exemplo: Miguel Ângelo, Rafael, El Greco, Rembrandt, Velázquez, Goya, Ribera, Picasso, Munch, Magritte, Dali, Klimt, Frida Khalo, etc. A ligação da arte à Medicina proporcionou-nos belas obras não só de temas mais comuns como: aulas magistrais dos grandes mestres, a relação médico-doente, casos clínicos, novas técnicas médicas, mas também foi a arte que nos deu a conhecer muitos séculos antes progressos médicos que só se vieram a concretizar já no nosso tempo. É o caso da primeira e mais importante referência à transplantação que se tornou simbólica pelo seu carácter premonitório – o famoso quadro que retrata o milagre dos Santos médicos Cosme e Damião realizado durante o reinado de Diocleciano, no ano 280, consiste na substituição da perna gangrenada de um doente por uma de cor negra de um etíope acabado de morrer – transplantação de uma perna. Originalmente transposto para tela por Fra Angelico no século XIV, foi depois reinterpretado e pintado por vários artistas como o pintor castelhano Fernando del Rincón no séc. XV, quadro que está exposto no Museu do Prado em Madrid. 

Continuaremos com este tema em próximos artigos.

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