Sexta-feira, 7 de Maio de 2021
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

O drama do Bila

O campeonato de 2020/2021 foi dramático. Mas neste drama os meus heróis – o Bila, o dos anónimos – chegaram ao fim e foram os últimos a rir.

O Bila conseguiu manter-se no Campeonato de Portugal, a terceira divisão nacional! Por um lado, este feito deve ser celebrado. Muitas horas, muito esforço, muito suor foram gastos por muitas pessoas durante um ano terrível marcado pelas segundas vagas da pandemia covídica. Por outro lado, o Sport Club de Vila Real celebrar tal feito mostra que um clube centenário, sediado num município que tem indicadores de qualidade de vida melhores do que muitos municípios portugueses com sedes de outros clubes em divisões mais exigentes, obriga a uma reflexão de todos os que gostam do Bila, que compreendem o seu valor histórico e atual, até mesmo dos outros que estão nas sedes da FPF.

O Drama do Bila é um drama triangular. Enquanto o cateto mais pequeno (o Bila) puxa para um lado, o cateto maior (as características endógenas do Bila) e a hipotenusa (as características do futebol atual) puxam para outro.

O cateto mais pequeno são os anónimos do Bila – os jogadores, os mais jovens do clube, os pais dos jogadores, os sócios, os voluntários, os colaboradores e em muitas horas dos dias os diretores. O plantel que conseguiu a manutenção teve muitas horas más, de descrédito, de dúvida, de cisões internas, de palavras e de passes mal trocados. No fim, merecem os primeiros e os últimos Parabéns!

O cateto maior são as características endógenas do clube. Centenário mas ziguezagueando entre direções, palmarés, treinadores. Entre as ruas de Vila Real. Entre o esquecimento e a memória bissexta. De tempos a tempos, os sócios animam-se, aparecem ‘correntes’, desfazem-se outras a cadeado, nascem sócios à pressa, caem direções de paraquedas. As pessoas zangam-se, expulsam umas, outras saem pela porta das traseiras, vêm outras. O clube sobrevive, por vezes tão estático como o Carvalho Araújo e tão teso como o Aleu do emblema. De tempos a tempos, percebe-se que o clube vale, tem valor, dá valor. De tempos a tempos, como fogo-fátuo.

A hipotenusa, o lado maior, é o que se passa no futebol nacional. Ingrato para com o interior de Portugal, para este espaço sem jovens para planteis jovens, sem excedentes para contratar emigrantes de luxo, mas com os tais oásis das cidades de média dimensão a leste da Nacional 2. Falta um Plano de Recuperação e de Resiliência para o desporto do interior do país! Falta mas cada vez menos eleitores vivem a leste da Nacional 2, mostrando que por mais santos que sejam os autarcas do interior, por mais planos de emagrecimento que façam e por mais tentativas de embelezar as suas terras, o povo vota com os pés, e antes prefere viver num T0 à beira-mar ou num quarto no Luxemburgo do que no morgadio da Almodena.

O campeonato de 2020/2021 foi dramático. Mas neste drama os meus heróis – o Bila, o dos anónimos – chegaram ao fim e foram os últimos a rir. Ainda que brindem sem alarido, façam a festa sem faturas, e possam andar com o orgulho imaculado dos vila-realenses que há mais de 700 anos os vem mantendo verticais.

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