Domingo, 31 de Maio de 2026
Rodrigo Sá
Rodrigo Sá
Engenheiro

O essencial e o acessório

Na semana passada um cronista da Voz de Trás-os-Montes, que também é deputado na Assembleia da República, gastou milhares de caracteres para discorrer sobre a paternidade da muito ansiada reabilitação da Escola de São Pedro.

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Recorde-se que essa importante escola vai finalmente ser alvo de uma intervenção, no valor de cerca de 4 milhões de euros, mas para o referido autor o importante parece ser qual foi o governo que falou mais vezes sobre o assunto. Dizia o cronista Luís Ramos, de forma crítica, que o governo de José Sócrates tinha prevista essa intervenção, no âmbito da Parque Escolar, mas não a tinha concretizado. Já não foi tão crítico com o governo de Passos Coelho, por também não a ter feito. Aliás, recordemos que foi esse governo que parou a requalificação do parque escolar nacional. Mas aí, a culpa era da Troika! Concluía dizendo que o atual governo também nada tinha a ver com a obra, já tinha sido Passos Coelho a negociar o pacote de fundos comunitários para Portugal, que pagarão 85% da intervenção na Escola de São Pedro. Bom, digo eu, sendo este último Primeiro-ministro na altura, ninguém mais o poderia ter feito. E haveria tanto para dizer sobre as asneiras do processo de negociação com Bruxelas… Mas o que me leva a voltar ao assunto são dois ou três factos que o cronista omitiu. Por esquecimento, seguramente! O primeiro desses factos é que o quadro comunitário atual deveria ter começado a ser implementado em 2014, precisamente no consulado de Passos Coelho. Não foi. Dois anos depois, o quadro comunitário 2020 começa finalmente a ser utilizado. Já não termos Passos Coelho como Primeiro-ministro, talvez ajude. O segundo facto é que a Câmara Municipal de Vila Real, à altura, não foi expedita e deixou passar o programa de apoio à modernização do parque escolar destinado ao ensino secundário, ao contrário de tantos concelhos vizinhos. O terceiro facto tem a ver com os 15% da obra que não são garantidos por fundos comunitários. Esqueceu-se o cronista de dizer que o governo anterior queria que as autarquias assumissem na totalidade essa comparticipação nacional. 15% de 4 milhões de euros seriam 600.000 euros que a autarquia de Vila Real teria que usar do seu orçamento municipal, que não é propriamente infinito. Mas o quarto facto, talvez o mais importante, é que o Município de Vila Real estava disposto a fazer esse esforço, dada a importância da obra. Felizmente não será necessário. O atual governo decidiu assumir metade desse investimento, ficando a outra metade a cargo da Câmara Municipal. Sobre isto Luís Ramos nada diz. Como nada diz, já agora, sobre qual foi o seu contributo para este processo e se alguma vez levou o assunto à Assembleia da República. Acredito que não. Esta tendência de focar o acessório em vez do essencial, começa a desenhar-se como uma constante. Há dias, na Assembleia Municipal, a propósito dos transportes públicos urbanos, o que interessava a Luís Ramos era se havia processos em tribunal, se eram em Portugal ou em Espanha, se eram assim ou assado. Infelizmente não o ouvi falar sobre o valor da concessão que custava 600.000 euros anuais ao Município e agora só custa 200.000. Nem sobre o facto de, apesar dos maus agoiros de alguns, o serviço de transportes públicos estar tão bom ou melhor do que no passado, sem nunca ter sofrido qualquer interrupção. Mas, lá está, isso seria complicado de explicar. É muito mais fácil criar apenas ruído ou falar da beira da estrada, quando se discute a Estrada da Beira.

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