O céu escurecia. E rapidamente caíam flocos de neve cheios de encanto! Percetíveis quando a sua algidez batia na cara ou nas mãos. Sim, a neve era farta em fagulhas, farrapos dobrados deixando tudo branquinho como se o mundo não tivesse outra cor. Era uma delícia vê-la no ar bailando, rodopiando entre si como graciosa bailarina em dança de corte.
A neve caía ininterrupta e difusa e as pessoas caminhavam felizes pisando-a, enquanto agradeciam aos céus a bênção que caía. E os caminhos em breve ficariam coloridos com aquela alcatifa fofa… e o gado lá passava meio perdido, salpicado nas guedelhas, sem orientação nem bússola porque tudo era branco, tudo fascinava os olhares numa alvura celestial. Já mais perto do Natal, a neve era mais densa e a canalha rebolava-se no chão brincando até ficar encharcada. Entretanto as lareiras crepitavam fulgurantes com a melhor lenha. Os potes fervilhavam com água dentro à espera de que neles entrasse alguma coisa para servir de refeição. Também nas lareiras os garotos mudavam a roupa com que lá fora se tinham divertido na construção de bolas de neve. As noites eram de sonhos lindos, porque o vislumbre da neve a isso ajudava…eram sonhos de asas brancas que desciam junto às vidraças e se derramavam no chão umas atrás das outras durante toda a noite enquanto o sono durasse.
De madrugada, um lençol branco e espesso que cobria a terra. E os passarinhos lá andavam saltitando nos espaços desnevados, voando entre palhiços, debicando no esterco que dos baixos das casas saía. Era um quadro inspirador, espécie de epifania, era cândida a natureza como a noivar à espera de um beijo espiritual. E os barracos e casas velhas, assim pintados, eram palácios onde dentro moravam fadas e anjos. Nas eiras, os pardais voavam rasantes em chusma, cantavam os galos nas capoeiras, cacarejavam as pitas baixo. O mundo assim tão belo, parecia um presépio: um bálsamo.
Persistia a alvura nas sombras e na beira das casas e dos caminhos, e os melros tocavam os címbalos lá para os giestais. Todos os animais na aldeia anunciavam o milagre da Natureza com vozes em perfeita harmonia. Diriam os ouvidos mais atentos e sensíveis que se estava perante a Pastoral de Beethoven, sinfonia em que os seres vivos vão com ela para as delícias do Paraíso.
Com a neve como fonte de inspiração, os jovens tangiam os seus violões e cantavam em voz afinada: “Glória a Deus nas alturas e paz aos homens de boa vontade…” depois, o mundo era de paz.





