Quinta-feira, 11 de Junho de 2026
Gabriela Botelho
Gabriela Botelho
Criminóloga

O que nos dizem os incêndios que têm assolado Portugal?

Nas últimas semanas, temos assistido à destruição consequente de vários incêndios florestais de grandes dimensões que assolam o território português.

A cobertura mediática deste fenómeno tem vindo a tornar-se uma constante nos períodos de verão ao longo dos anos, imagens de chamas incontroláveis, aldeias evacuadas, pânico e destruição tornam-se a companhia diária da população, algo facilmente justificável pelos danos ambientais, sociais e económicos que provoca. Mas há uma pergunta que raramente se coloca: poderá esta exposição constante ter efeitos colaterais?

A evidência diz-nos que a forma como os incêndios são noticiados e comunicados pode funcionar como um estímulo para indivíduos com Piromania, um transtorno de controlo dos impulsos que se manifesta por um impulso de atear fogo de forma deliberada e proposital.

Estes experienciam tensão ou excitação antes de provocarem um incêndio e demonstram um grande fascínio, interesse e curiosidade pelo fogo e os respetivos contextos situacionais. É frequente sentirem prazer, gratificação ou alívio não só ao provocar um incêndio, mas também a testemunhar as consequências devastadoras, uma vez que, não o fazem com finalidades financeiras ou monetárias, mas sim por procura de gratificação e satisfação psicológica, associada à dificuldade em controlar o seu impulso.

Tendo isto em conta, vários estudos apontam para o facto de que a atenção mediática dos incêndios pode ser um gatilho para estes indivíduos especialmente vulneráveis psicologicamente, já que a repetição constante de imagens do fogo, sirenes e incapacidade de controlo por parte das autoridades pode aumentar o sentido de grandiosidade e de poder do ato incendiário na mente do pirómano, o que, para eles funciona como recompensa simbólica. Apesar de nem todos os incendiários estarem diagnosticados com este transtorno e de não se poder falar numa relação causal direta, a verdade é que estudos sugerem que existe uma correlação entre picos de cobertura mediática e o aumento de incêndios de origem criminosa.

-PUB-

Apesar de ser necessário informar a população, é importante evitar tornar o fenómeno, por si só catastrófico, numa tragédia e espetáculo televisivo, pois quando um pirómano vê a sua obra abrir os noticiários, gerar debates e provocar uma comoção nacional, há um reforço simbólico do seu poder, o que pode servir como estímulo ou reforço, para si e outros indivíduos com o mesmo transtorno.

Por este motivo é importante tomarmos consciência de que vivemos tempos em que a informação é uma arma valiosa e a forma como se comunica estes fenómenos pode ser uma poderosa ferramenta de prevenção.

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