Domingo, 31 de Maio de 2026
Rodrigo Sá
Rodrigo Sá
Engenheiro

O visitante amnésico

Passos Coelho tem andado por aí. As notícias colocam-no em Vila Real, depois em Chaves, passado um tempo em Alijó, enfim, tem percorrido as capelinhas todas. A região é linda e agora terá mais tempo.

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Aliviado das funções de Primeiro-ministro (o alívio é nosso, bem entendido) parece ter finalmente descoberto que existe o distrito de Vila Real. Estarei a ser injusto, porventura. Na verdade, por razões familiares e políticas, Passos Coelho sabe bem onde fica o interior norte. Mas essa constatação pode levar-nos a concluir que preferiu ignorá-lo e muitas vezes prejudicá-lo, enquanto deteve o poder de fazer precisamente o contrário.

“A crise”, dirão alguns dos seus defensores, “a culpa foi dos outros e da crise”! Sim, o problema terá estado numa crise, mas não na crise económica que condicionou e condiciona o nosso país. A crise de Passos Coelho foi uma crise ideológica, de valores e de falta de solidariedade. Os exemplos abundam. Quando decidiu encerrar tribunais no distrito de Vila Real a opção foi política e não económica. Aliás, para encerrar tribunais em Alijó, Murça, Boticas ou Sabrosa, teve que gastar muito dinheiro para criar novas instalações para um tribunal em Vila Real, no ex-DRM.

O nosso concelho gostou do imóvel recuperado, mas os milhares de Transmontanos e Alto Durienses nossos vizinhos, que passaram a ter o acesso à justiça mais longe e mais caro, seguramente não apreciaram positivamente a opção. Felizmente o atual governo corrigirá brevemente esse desastre. Também foi política e pouco solidária a decisão de Passos Coelho de introduzir portagens nas ex-SCUT da região, em dezembro de 2011. Mas foi mais grave do que isso.

Numa das regiões mais pobres da europa e das que mais tarde teve acesso a autoestradas, estipulou o preço mais caro do país por quilómetro. “Utilizador-Pagador”, dizia ele. Não falou em crises nem em dificuldades financeiras. A opção ideológica do então primeiro-ministro era de que quem usa a estrada é que tem que a pagar, mesmo que durante décadas tenha andado a contribuir, através dos impostos, para as estradas dos outros. E os barcos no Tejo, e o Metro no Porto ou os elétricos em Lisboa. O seu desconforto com a região é de tal ordem que nem sequer quis estar presente na inauguração do Túnel do Marão, preferindo uma qualquer reunião do seu partido, no litoral.

Estes exemplos ilustram algumas das maldades que Passos Coelho nos fez enquanto território, e tenho muitas dificuldades em encontrar exemplos de coisas que lhe possamos agradecer regionalmente. Imagino que por estes dias, enquanto visita os seus companheiros de partido, lhes peça ajuda para as eleições autárquicas e para as (muito prováveis) eleições internas do PSD. Esses Transmontanos e Alto Durienses, ao contrário de Passos Coelho, vivem cá todos os dias.

Sabem o que é uma região pobre, com poucos serviços públicos e com um mercado de trabalho muito limitado. Conhecem bem o custo da interioridade. Por muito que alinhem no exercício do “faz de conta que eu fui um primeiro-ministro muito bom”, a realidade bate-lhes à porta todos os dias. Infelizmente não se podem dar ao luxo de terem os mesmos ataques de amnésia do seu líder. Nem eles nem nós.

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