Terça-feira, 21 de Abril de 2026
Eduardo Varandas
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

O Zé Soqueiro

Em tempos idos, quando a população residente nas aldeias do interior era muito superior à que atualmente existe, em quase todas elas a existência de figuras típicas era uma realidade que vai rareando nos tempos que correm.

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Destacavam-se pelas suas características físicas ou pela forma extrovertida como se apresentavam, fazendo delas seres humanos que despertavam a atenção do comum dos mortais.

Recordo a este propósito, dos meus tempos de juventude, uma dessas figuras que dava pelo nome de Zé Soqueiro, também conhecido por Zé Marranica. A primeira alcunha devia-se ao facto de ser filho de um artesão, existente na aldeia de Guiães, conhecido por Soqueiro, dedicado à confeção de socos que os trabalhadores rurais usavam nas deslocações para o amanho das terras. Era, porém, mais conhecido pelo segundo cognome, “batizado” pelos seus patrícios devido a uma deficiência física que o marcou, para sempre, desde criança. Aliava à sua inteligência e perspicácia, dotes de cantor exímio, exprimindo essa qualidade intrínseca, na missa dominical, em que participava com frequência. Notava-se à distância a sua voz de tenor que sobressaia com toda a naturalidade no meio do coro que acompanhava a liturgia dominical.

Esta figura castiça do património imaterial da nossa terra, com o desaparecimento dos pais, passou a ter uma vida errante e inconstante. Tinha um parafuso a menos, como se diz na gíria, mas a ausência dos seus progenitores afetou-o ainda mais. Passando a saltar de terra em terra. Para nos últimos anos da sua vida atribulada, assentar arraiais na nossa Bila, onde vivia da caridade alheia. Nos finais da década de sessenta, tinha por hábito colocar-se de “plantão” nas proximidades do Liceu Nacional Camilo Castelo Branco ou da Escola Industrial e Comercial, assistindo à saída das aulas, normalmente ao final do período da manhã, trauteando cantigas do cancioneiro popular, entremeadas por alguns piropos dirigidos às alunas, que achavam graça, diga-se de passagem, munindo-se, por vezes, de um guarda sol, para se prevenir do sol inclemente que às vezes se fazia sentir.

Esta sua postura, inofensiva, era ao mesmo tempo divertida não deixando ninguém indiferente pelo pitoresco da situação criada.

Soube mais tarde, já aqui em Lisboa, que, infelizmente, tinha falecido vítima de um atropelamento, na nossa Bila, julgo que para os lados da Estação da CP.

A esta personagem típica de outros tempos, presto-lhe aqui a minha homenagem. Que a sua alma repouse na paz do senhor.

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