Quarta-feira, 4 de Agosto de 2021

Três retratos de (por) António Barreto

António Barreto (AB), sociólogo, político e um dos mais conceituados intelectuais portugueses da actualidade com uma intervenção social frequente através dos media  deu agora à estampa o livro, “Três Retratos: Salazar, Cunhal e Soares”.

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Deve dizer-se que AB escreve sobre o que sabe pois conheceu bem estas três personalidades, já que foi oposicionista de Salazar, militou no PCP de Cunhal e foi ministro de Soares. Além destas experiências de vida AB tem sido um atento e devotado estudioso, analista e comentador da realidade sociológica e política portuguesa, pelo menos desde Abril de 1974, tem portanto, conhecimento e autoridade para analisar estes três portugueses que tanto influenciaram o Portugal do século XX. Não sendo uma obra histórica, estes “Três Retratos” são elaborados tendo por base a opinião pessoal do autor mas também factos e documentos históricos, principalmente resultantes da sua intervenção politica. Trata-se, sem dúvida, de um importante contributo para um melhor conhecimento e compreensão do Estado Novo de Salazar, da revolução de 25 de Abril de 1974, do PCP de Cunhal e do papel de Mário Soares na implantação e consolidação da democracia. É a visão de um homem livre e independente que os historiadores do futuro, certamente, agradecerão. Uma apreciação preliminar desta obra permite-nos concluir com AB que Salazar e Cunhal eram ambos visceralmente contra a democracia e defensores de ditaduras, ao contrário de Soares que era um democrata convicto. Salazar comprovou-o ao nível do estado. Cunhal ao nível do partido (o centralismo democrático é uma mistificação da democracia) que lutava (e luta) pela instauração da ditadura do proletariado. Cunhal tinha uma particular paixão pelas ditaduras comunistas, (“o sol da terra”) e opunha-se frontalmente à democracia parlamentar, que denominava, com algum desprezo, de “burguesa”. A oposição às suas lideranças não era tolerada – Salazar prendia os seus opositores, Cunhal expulsava-os do partido ou forçava-os a sair. Para Salazar e Cunhal só as suas ideias e o seu exercício do poder contavam e por isso só lhes interessavam os seus fiéis como assinala AB: “Rodearam-se de mordomos. Aqueles que, nas respectivas cortes, se distinguiam foram afastados. Com eles ou à volta deles, não se fizeram homens livres. Os que o eram não foram desejados. E, cúmulo do cinismo, os seus servos dizem-se livres!”. Alguns, nomeadamente os seus seguidores, dirão que Cunhal lutou pela democracia e pelas liberdades e por isso esteve preso! Como AB explica “Cunhal…grande lutador pelas liberdades durante 40 anos, percebeu-se, em 1974, que a liberdade que pretendia era a dos comunistas. E sob condição de obediência e subjugação, claro”. Enfim, um livro a ler para avivar a memória de um Portugal pobre e atrasado (Salazar) que esteve próximo de uma guerra civil para evitar uma ditadura comunista (Cunhal) e das dificuldades por que passou para implantar e desenvolver a democracia que se ficou a dever em grande parte a Mário Soares.

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