Percorreram a morte da Rainha Isabel II, e as respetivas cerimónias fúnebres que, de certa forma, espantaram os republicanos mais desatentos pelo poder de influência da monarquia britânica e o respeito recíproco do povo; passaram pelo início do ano letivo, com a preocupação crónica da falta de professores, principalmente nas zonas centro e sul do país; evidenciaram os novos rostos do Ministério da Saúde e do Serviço Nacional de Saúde e esmiuçaram as reações, ao plano apresentado pelo governo português dirigido às famílias e às empresas, face ao aumento dos preços.
Apesar de tanta distração, foi no confronto político sobre os pacotes de combate à inflação, que se revela sempre saudável numa democracia liberal, que a minha atenção se focou. Dos poucos argumentos, legítimos, de alguns responsáveis do Partido Social Democrata (PSD), que aproveitaram uma apresentação pouco esclarecedora do Primeiro-Ministro, principalmente no que toca às “subidas” das pensões, aquele que me deixou um pouco perplexo foi a tentativa de colar este plano do governo socialista a um pacote de austeridade.
Ora, parece-me evidente que a prudência das medidas do governo, aplaudidas pelo Presidente da República, mas contidas no seu caráter expansionista, demonstram uma maturidade e cautela políticas, de quem aprendeu a lidar com as inflexões bruscas das orientações europeias, no que respeita à política monetária. Acresce ainda que a aplicação da palavra austeridade, para além de afligir os portugueses, não se enquadra no cenário que vivemos no presente. Os factos caraterísticos que definem a austeridade não se verificam, no que respeita ao emprego, ao crescimento económico e ou ao Produto Interno Bruto (PIB). Não encontramos aqui uma desvalorização interna e consolidação orçamental, muito menos uma reforma laboral que penaliza e fragiliza as condições negociais dos trabalhadores e a redução dos seus salários. O impacto de um ajustamento, agressivo, que dividiu os portugueses e depauperou a administração pública não foi de todo a alternativa do governo de António Costa.
A oposição deve elucidar e contrariar, ainda que através de vários ângulos, as iniciativas do governo, contudo, ir recuperar a narrativa da austeridade não acrescenta nada à discussão política muito menos à vida dos portugueses.





