Segunda-feira, 14 de Junho de 2021
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

A explosão libertadora do beijo

A ti Jacinta está num lar e já não sabe o que é dar e receber um beijo.

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Ali está a ti Jacinta ancorada nos seus 89 anos. Sem beijos, nem afagos, sem olhares, ela está a perder a vontade de viver… quer estar desligada da máquina da vida e do tempo… Vive permanentemente a angústia do desassossego pela falta de um beijo, um simples beijo.

Pensa sair dali para realizar algumas fantasias próprias da idade… ir pelos campos, deambular recriando pensamentos, vislumbrando um passado onde o beijo acontecia, porque era jovem, alegre, porque era bonita, disputada pelos malandrecos da terra.

Ah! E como a ti Jacinta sonhava nas memórias dos anos quase esquecidos da juventude… Como ela amava noites sombrias e pesadas de outono e inverno tardio e com que sofreguidão e embriaguez absorvia as impressões de solidão e melancolia esperando por um beijo fácil e gostoso… Mas o beijo com o primeiro namorado, lembra-se bem, aconteceu numa noite cintilante e diáfana de luar… foi um beijo puro, fraternal, espiritual… como filha do sacristão, ela tinha aprendido os mandamentos do decoro, as regras da civilidade… e o seu coração estava permanentemente de vigia para afastar bem longe a tentação do demónio…

Agora a ti Jacinta agarra-se às derradeiras garras da sobrevivência, mescladas num corpo doente de febres, de tonturas e anemia… Pensa num beijo, ainda que seja o último…

Na verdade, ela sente-se uma mulher sofrida, sem pátria nem bandeira… Ah! Um beijo vinha mesmo a calhar…

A sua voz tem uma inflexão de uma ternura cálida, porque afinal a ti Jacinta acredita no beijo que há de chegar na clareira de um sonho numa manhã linda de primavera…
Agora… Que futuro aí vem?

Será que seguiremos assustados com a proximidade do outro, ou pelo contrário estaremos cansados do digital, ansiosos por ternura, aproximação, afetos?

A verdade é que ninguém sabe…Mas numa primeira análise vai vingar a ideia do beijo como algo perigoso e a evitar… e com isso os sintomas dos laços humanos ficarão desfeitos, pois o beijo foi tantas vezes a explosão libertadora, o prazer da felicidade do momento, o sinal maior das paixões mais exacerbadas. Falamos do beijo como o ato mais humano de todos pela aproximação dos lábios, o beijo num determinado propósito de feição, o beijo como sinal de carinho.

O beijo há os para todos os gostos: leves, profundos, inteiros, molhados, secos, na testa, desajeitados, falsos como Judas, na face, na nuca, no lugar mais desajeitado ou improvisado… Há o beijo dos velhos, tremidos, mas normalmente sentidos e verdadeiros. Há o beijo dos jovens, por vezes falseado no desejo impulsivo de mostrarem a sua atrevida ousadia… Há o beijo inconfundível da mãe, uma das pérolas maiores do universo.

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