A morte, mais do que nunca, tem estado no seio do debate público, mas receio que não esteja a ser abordada sob uma perspetiva humanista, mas por uma abordagem excessivamente individualista e utilitária.
Relativizar o direito supremo à vida, conceito fundacional da nossa civilização, é colocar em causa toda a infraestrutura moral sobre a qual estão assentes o nosso regime democrático e as suas instituições.
Os números das fatalidades de 2020 – o pior dos últimos 100 anos – demonstram a desorientação e a incapacidade de resposta do SNS (ineficiente e mal estruturado) face às exigências da pandemia.
A mera hipótese de termos de escolher entre quem vive ou quem morre, deveria envergonhar-nos como sociedade e como país e fazer-nos refletir sobre as decisões que tomámos, ao longo das últimas décadas.
O desinvestimento público e a suborçamentação do setor da Saúde ou a exclusão sistemática dos privados e do setor social na prestação de cuidados de saúde provaram ser fatores altamente penalizadores.
Não obstante, a situação sanitária e o contexto de excessiva mortandade, escassos dois anos após a última votação parlamentar, a esquerda resgatou a questão da Eutanásia, conseguindo lograr os seus intentos.
Ao desvalorizar o debate público e as opiniões de dezenas de especialistas – quer no âmbito das ciências da vida, quer no âmbito jurídico – a extrema-esquerda ousou sobrepor-se às forças moderadas, impondo a sua agenda.
Num país sem uma verdadeira rede de cuidados paliativos, num país que deixa milhares de doentes terminais à sua sorte, a esquerda entregou ao Estado um novo instrumento de desresponsabilização social.
As consequências atendíveis das decisões e dos falhanços de hoje não serão imediatas, mas terão efeitos perenes e gravosos no seio da sociedade portuguesa.
As pretensas vitórias civilizacionais, aclamadas por uma minoria, não são mais que retrocessos profundos e irreversíveis, que nos aproximam da barbárie de tempos antigos.






