A paz é possível

Não há guerra nenhuma que se justifique e que seja inevitável. Fica no ar a impressão de que não se fez tudo para evitar a guerra contra a Ucrânia e não se está a fazer tudo para a parar.

Neste mês de dezembro, a 30 e 31, faz cinquenta anos que aconteceu a realização da vigília da Capela do Rato, em Lisboa, que reuniu dezenas de católicos em oração, jejum e reflexão, como forma de protesto contra a ditadura e a guerra colonial, guerra estulta e anacrónica, sem sentido, injusta e mortífera, com frentes na Guiné, Angola e Moçambique.

Segundo Jorge Wemans, participante no acontecimento, “a Capela do Rato foi o momento decisivo da desafecção de setores que estavam a meio da ponte na crítica ao regime, gente que já tinha entre os seus familiares ou amigos mortos na guerra colonial, e contribuiu para desbloquear a consciência católica, abriu os olhos, mas há um grupo mais alargado de responsáveis católicos que não mexeu um dedo contra a guerra e contra a ditadura”. A vigília acabou por ser considerada uma grave irreverência contra o regime, acabaram por ser presos, inclusive padres, e a capela foi encerrada. Passados uns tempos, foram soltos. De qualquer forma, segundo Jorge Wemans, “foi criada uma dinâmica que criou um sobressalto na sociedade”.

Para muitos, a vigília da Capela do Rato veio no seguimento da vigília que ocorreu 4 anos antes na Igreja de S. Domingos, em Lisboa, nos dias 31 de dezembro e 1 de janeiro, com a participação de 150 pessoas. Para muitos setores católicos era incompreensível o silêncio da hierarquia da Igreja perante a guerra colonial.

O facto que terá despoletado estas ações católicas foi a criação do Dia Mundial da Paz, em 1967, pelo Papa Paulo VI, afirmando que “a paz é possível, se for verdadeiramente querida; e se a paz é possível, ela é obrigatória”.

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Como ainda não chegaram os tempos em que o ser humano domina a sua ganância, ambição e prepotência, estas duas rebeliões pacíficas de católicos devem ser uma inspiração contra a nossa cobardia e resignação diante das muitas formas de guerra que temos diante dos olhos. Não há guerra nenhuma que se justifique e que seja inevitável. Fica no ar a impressão de que não se fez tudo para evitar a guerra contra a Ucrânia e não se está a fazer tudo para a parar. É preciso lutar sempre e todos os dias pela paz.
E num tempo em que predomina o individualismo, a indiferença e a fria competitividade, vale a pena escutarmos o Senhor Presidente da República: “Eu não sei se gosto muito da ideia de amar a paz em abstrato, basta amar os outros. A nossa realização passa pelos outros e tem de ser com os outros. Se cada pessoa se realiza com os outros, está a construir a paz”.

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